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ESTE ALENTEJANO OFERECE MAIS UM SONETO...., por Carlos Luna


SONETO: A TRADIÇÂO QUE MORRE (apelo sentimental em defesa da cultura popular)///

Num tempo de lógicas mal pensadas,/...
não se sabe, Olivença, p'ra onde vais,/
pois das antigas paredes caiadas/
só restam fotografias e postais!//


Neste afã de tradições desprezadas/
não és só tu, Olivença, que te trais!/
Todo o Alentejo de eras passadas/
está a teu lado quando aos poucos te esvais...//

Não podes deixar morrer tua raiz!/
Teus monumentos afinal te pedem/
p'ra serem algo mais que só chamariz!//

Vê a dor daqueles que se despedem/
desta cultura que é a tua matriz!/
Só porque morreram o não impedem!!///

Estremoz, 25 de Julho de 2014

 Carlos Eduardo da Cruz Luna

SONETO: EM OLIVENÇA, O FUTURO É DE TODOS//, por Carlos Luna


É por todos aqueles que te amaram/
que procuramos em ti, Olivença,/
a essência dos tempos que passaram/...
onde deles se sente ainda a presença!//
 
Não dizemos aos que depois chegaram/
que estar em ti é alguma ofensa./
Apenas queremos o que te negaram/
em séculos de triste indiferença.//

Acolhe tudo o que em ti há de melhor./
Constrói já um futuro para os teus filhos/
em que todos possam olhar em redor.//

Não mais segredos nos teus velhos trilhos!/
A verdade tem de ser o bem maior,/
pura, com seus raios de claros brilhos!///

Estremoz, 24 de Julho de 2014

 Carlos Eduardo da Cruz Luna

Um encontro com um contrabandista e um guarda-fiscal já é turismo, por Carlos Dias

Por


 
As memórias de um tempo em que o contrabando era o modo de vida das populações na raia alentejana fazem parte da oferta turística do concelho do Alandroal, através da parceria com a empresa Spira, que tenta recuperar estórias que outrora uniam as comunidades de Juromenha e Olivença.
São as "rotas pica-chouriços".
 
António Inácio Vitória tem quase 80 anos.
Deixou o contrabando vai para 25 anos, mas os seus conterrâneos continuam a apelidá-lo de “Corre-Corre” e de “Atleta”.
Entre os anos 60 e 90 do século passado, quando o sustento da sua família era garantido pelos ganhos da atividade clandestina, “fazia uma légua diária a correr”.
Não precisou de explicar porquê: a fuga às brigadas de carabineiros espanhóis e da Guarda Fiscal portuguesa quando fazia incursões no interior do território de Olivença, em plena noite, de carga às costas que variava entre os 25 e os 40 quilos, e ao longo de distâncias que poderiam atingir os 60 quilómetros, exigia indivíduos física e mentalmente dotados.
António Inácio Vitória tem quase 80 anos.
Deixou o contrabando vai para 25 anos, mas os seus conterrâneos continuam a apelidá-lo de “Corre-Corre” e de “Atleta”.
Entre os anos 60 e 90 do século passado, quando o sustento da sua família era garantido pelos ganhos da atividade clandestina, “fazia uma légua diária a correr”.
Não precisou de explicar porquê: a fuga às brigadas de carabineiros espanhóis e da Guarda Fiscal portuguesa quando fazia incursões no interior do território de Olivença, em plena noite — cobrindo distâncias que poderiam atingir os 60 quilómetros e levando às costas uma carga que variava entre os 25 e os 40 quilos —, exigia indivíduos física e mentalmente dotados.
 
O contrabando foi, ao longo de séculos, o sustento adicional, ou mesmo único, para muitas famílias que não conseguiam suprir as suas necessidades no trabalho agrícola.
Com a assinatura do Acordo de Shengen, em 1992, que determinou a abertura de fronteiras e a livre circulação de pessoas e bens, a atividade do contrabandista tornou-se obsoleta.
Desse tempo restam as memórias e os testemunhos das derradeiras personagens que mantiveram um permanente jogo do gato e do rato no desempenho dos respetivos papéis: os que viviam do contrabando e aqueles que faziam valer a legalidade.
 
Não havia tufos de matagal, pedregulhos ou buracos, esconderijos de recurso para cargas e pessoas que Inácio Vitória não conhecesse, assim como códigos de conduta, cumplicidades e modos de entreajuda que sustentavam as relações com as comunidades rurais de Olivença.
Natural de Terena, concelho do Alandroal, aos sete anos já guardava gado.
Depois foi moço de recados de uma família rica e só aos 30 anos é que se tornou contrabandista. Nunca foi apanhado pelas autoridades dos dois países.
“Mas ouvi as balas a assobiarem-me aos ouvidos”, recorda.
 
O antigo contrabandista descreve um cenário de medo que se tornara uma constante em cada incursão no território de Olivença, sempre à noite.
Vezes sem conta recorreu a um sinal de alerta em surdina para avisar os membros da quadrilha da proximidade de carabineiros.
Temiam pela sua detenção e a apreensão da mercadoria, o espancamento ou até a morte, varados pelas balas da guarda civil espanhola.
O líder do grupo ordenava, nestas circunstâncias, a rápida dispersão e, cada um por si, teria de alcançar o seu destino e entregar a mercadoria em segurança.
“‘Atão’ não havia de fugir?”
 
Por vezes, os menos afoitos ou fisicamente mais debilitados eram capturados, a carga apreendida e, nalguns casos, eram sujeitos a agressões físicas.
Numa dessas passagens por uma zona rural de Olivença, Inácio Vitória viu um carabineiro capturar um companheiro: “Era pontapés por todo o corpo”, recorda.
Um colega do agressor reagiu, irritado: “Hombre! Isso não é coisa que se faça”.
O infeliz chegou a Juromenha derreado pelas agressões que sofreu, para acabar por ser detido pela Guarda Fiscal, que mantinha uma “excelente” cooperação com a congénere do país vizinho.
 
No regresso a Portugal, eram confrontados com as emboscadas das autoridades portuguesas, que conheciam as “rotas e as subtilezas dos contrabandistas”, revela João José Rosado, de 82 anos, que foi guarda-fiscal para “ganhar mais um pouco”, explicou.
Hoje conta as velhas histórias sentado num banco de pedra junto às antigas instalações da corporação que serviu e ao lado de Inácio Vitória, que perseguiu — nem sempre com êxito —, quando este carregava mercadorias para Espanha.
‘Atão’ não havia de fugir?
Você queria roubar-me o café!...”, recorda Inácio.
 
Hoje mantém uma relação de amizade com um dos últimos guardas-fiscais, então alcunhados de “pica-chouriços” por utilizarem um ferro aguçado com que verificavam se havia algum produto de contrabando camuflado.
Se o dia-a-dia não era fácil para os homens do contrabando, também os “pica-chouriços” se queixavam das condições a que eram sujeitos para desempenhar a sua missão.
José Rosado conta que “fi cava num ponto sem arredar pé durante 12 horas, à chuva ou ao calor”, a vigiar uma determinada área percorrida pelos contrabandistas.
“Cheguei a levar palha para não me esfriarem os pés”.
A vida de um guarda “era viver dentro de um barraco ou debaixo de uma azinheira”, observa.
 
O seu colega na corporação, Francisco Valente, de 78 anos, que foi comandante de vários postos da Guarda Fiscal entre Mourão e Pomarão, acrescenta que habitar nos postos da corporação “era viver como bichos, sem água, sem luz”.
“Quando chovia, ficávamos isolados”, lembra, frisando que boa parte das instalações nem de caminhos de acesso dispunha.
 
Quem pagava era o Nabeiro
Prender os infratores e apreender a carga era a missão da guarda, que aplicava uma multa.
“Mas, quando a carga era café, quem a pagava era o (Rui) Nabeiro”, diz José Rosado.
“Contudo, tínhamos ordens verbais para facilitar” e, por vezes, “fazíamos por não ver”, conta.
“Não queríamos apanhar os contrabandistas.
Disparávamos três tiros para o ar.
Eles fugiam e nós ficávamos com a mercadoria”, que depois era leiloada, sublinha Francisco Valente, dando um exemplo: “Uma vez, deparei-me com um dos contrabandistas tão perto de mim que ficou com vergonha em fugir. Tive que lhe dizer: ‘Desaparece!’, frisando que não era propósito da guarda prender os contrabandistas”, assume o antigo “pica-chouriços”.
 
Os produtos contrabandeados entre os dois países, entre os anos 60 e 90, eram de tal forma variados que nem a imaginação mais fértil os abarca a todos: louças de pyrex e esmaltadas, rebuçados, chocolates, calças de ganga, aspirinas e outros medicamentos, perfumes, tabaco, roupas, toucinho, tripas de porco, pneus, peças de automóvel, barras e folhas de cobre ou gado.
E, claro, café, o produto mais cobiçado e “transaccionado” de Portugal para Espanha desde a Guerra Civil espanhola.
Com a abertura das fronteiras no início dos anos 90, o contrabando praticado durante séculos pelas comunidades rurais localizadas na raia entrou em declínio, tornando dispensável o elevado efectivo da Guarda Fiscal concentrado ao longo da fronteira entre os dois países ibéricos.
Só na província de Badajoz, estavam instalados 26 postos distanciados entre si apenas seis quilómetros. Em território português, a densidade de efectivos da Guarda Fiscal era equivalente.
 
O abandono dos postos acelerou o despovoamento dos montes e das comunidades fronteiriças.
A aldeia de Juromenha, que já foi sede de concelho no século XIX, tinha, nos anos 60 do século passado, cerca de 1500 habitantes. Hoje, a população é inferior a uma centena de pessoas.
 
O lendário Zé Lagarto
A povoação de Juromenha foi uma das comunidades nevrálgicas no apoio às actividades associadas ao contrabando e de onde eram originários contrabandistas cujas histórias de vida são hoje quase lendárias.
O mais famoso — Joaquim José Lagarto — “era o diabo”, diz António Inácio Vitória, que com ele conviveu e a quem viu agarrar na cabeça de um carabineiro para a enfiar num buraco no chão em território espanhol.
O sociólogo espanhol Eusebio Medina Garcia destacou “Zé Lagarto” no livro que escreveu com o título Contrabando na Raia de Portugal, publicando uma entrevista à personagem que mais vincou o espírito contrabandista.
 
Começou a sua actividade clandestina aos 16 anos e esteve várias vezes preso.
Aguentava três dias e três noites sem comer nem beber, uma faceta de que mais ninguém se podia orgulhar, particularidade que Inácio Vitória confirma, reconhecendo-lhe “valentia, lealdade e capacidade de liderança”.
 
Numa das incursões em território espanhol, um grupo de 14 pessoas caminhava por um trilho de cascalho, mas o último da fila era um pouco surdo e batia com demasiada força o cajado no chão, quando a prudência impunha o silêncio.
“Zé Lagarto” irritou-se com o “mouco” e envolveu-se numa luta com o “barulhento” companheiro, felizmente sem consequências.
 
O líder dos contrabandistas transportava cargas de 40 quilos de café para Mérida, a mais de 80 quilómetros de Juromenha.
A distância era percorrida durante três noites e, de dia, os contrabandistas aguardavam, escondidos, que a escuridão regressasse, para prosseguir a caminhada. Ganhava dois euros (400 escudos) pela tarefa, enquanto um trabalhador agrícola auferia 3,5 cêntimos (7,5 escudos) por um dia de trabalho nos anos 60 do século passado.
 
Outra das figuras que marcaram o imaginário das comunidades raiana, alcunhado de “Patalarga”, era também português e residente na Juromenha.
No final dos anos 70, atravessava o Guadiana em barcos de que era proprietário e calcorreava as pequenas aldeias de Olivença, na companhia do filho de 13 anos, para vender café, toalhas, imagens de Nossa Senhora de Fátima, jogos de damas e de xadrez, e até peças de automóveis e de camiões.
As pessoas nutriam por ele simpatia e confiança, a ponto de lhe facultarem os palheiros para dormir.
Sempre atento e cuidadoso, e contando com a cumplicidade dos oliventinos, nunca foi detido pelos carabineiros nem lhe foi apreendida mercadoria.
Deixou o contrabando com a abertura das fronteiras e acabou os seus dias a guardar um rebanho de ovelhas nas margens do rio Guadiana. Morreu em 1996,  com 86 anos.
 
A rota “Pica-Chouriços”
A Câmara do Alandroal, em parceria com a empresa Spira, especializada em projectos de revitalização patrimonial, está a recuperar a rota “Pica-Chouriços”, assim designada na atualidade, que era utilizada pelos contrabandistas em território português.
Começa junto ao antigo posto da Guarda Fiscal na aldeia de Montejuntos e segue para jusante, sempre paralela à albufeira de Alqueva, ao longo de três quilómetros.
O coordenador operacional da Spira, Fernando Moital, disse ao PÚBLICO que o objectivo é “dar a conhecer os trajectos usados pelos contrabandistas no Alandroal”.
A ideia de recriar esta rota, que dará aos visitantes a oportunidade de ouvir os testemunhos dos contrabandistas e dos guardas fiscais, surgiu na sequência do levantamento histórico e patrimonial que a empresa elaborou da antiga Guarda Fiscal.

SONETO: OLIVENÇA, DO PARAÍSO PARTE, por Carlos Luna

Tomo a liberdade de publicar mais este soneto da autoria do poeta estremocense Carlos da Cruz Luna dedicado à cidade de Olivença.



Carlos Da Cruz Luna


SONETO: OLIVENÇA, DO PARAÍSO PARTE///


Olivença, és o lugar perfeito/
p'ra despertar sublimes sentimentos,/...
porque tanto é o que guardas no peito/
que suportas os vivas e os lamentos!/
-------------------------------------------------
 

Como fica o poeta satisfeito/
por ver premiados os seus talentos!/
E sente o pintor apurar-se o jeito/
ao gravar teus traços e ornamentos!//
-----------------------------------------------------
 
 
Olivença, do Paraíso parte,/
tema de escritores e arquitetos,/
relicário de tantas obras d'arte!//
---------------------------------------------------
 
 
Trespassas quem a ti vem, com afetos,/
já que qualquer um que de ti s'aparte/
não esquecerá os teus antros secretos!///
------------------------------------------------------

Estremoz, 18 de junho de 2014

Carlos Eduardo da Cruz Luna

SONETO: OLIVENÇA, FLOR ABERTA, por Carlos Eduardo da Cruz Luna

Tomo a liberdade de publicar este soneto da autoria do poeta estremocense Carlos da Cruz Luna dedicado à cidade de Olivença.
 
 
 
 
Olivença, formosa flor aberta,/
na planície ampla já tão versejada!/
Olivença, vendo-te descoberta,/...
indefesa te vês, de tão amada!//


Por muito que penses estar alerta,/
não podes, Olivença, fazer nada,/
porque não podes ficar encoberta,/
tão bela és, flor branca e encarnada!//

Olivença, enlouqueces os poetas/
com as tuas pétalas, demonstrando/
teres em ti maravilhas secretas...//

Olivença, não consigo, cantando/
mais do que dar imagens incompletas/
do que, em ti, continuo adorando!///

Estremoz, 10 de Junho de 2014

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Três anos de actividade: o "Além Guadiana"


RESUMO DE ACONTECIMENTOS DE TRÊS ANOS: 2008-2011

A INESPERADA RECUPERAÇÃO DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA
Portugal é um País de contradições. Ambiciona ser conhecido, reclama que a sua cultura é pouco divulgada... mas, contraditoriamente, parece envergonhar-se de assumir manifestações concretas da sua cultura.
Desde 2008 (em Março de 2011, celebra-se o terceiro aniversário), algo de novo surgiu no panorama cultural português... ou, se se quiser, lusófono. Previamente, a União Europeia chamou a atenção para a falta de protecção de que a Língua Portuguesa era vítima por parte do Estado Espanhol em Olivença e Táliga (antiga aldeia de Olivença.Mais importante, na própria Olivença, um grupo de locais fundou a Associação "Além Guadiana", que, sem se preocupar com a questão, que se mantém, algo discretamente, sobre a soberania legal (ou efetiva) sobre a Região, decidiu meter "mãos à obra", e começar a lutar pela recuperação da sua cultura e da sua História. Entenda-se: Cultura e História portuguesas.
Menos de um ano sobre a sua fundação, o grupo conseguia, em 28 de Fevereiro de 2008, organizar uma "Jornada do Português Oliventino", que decorreu na Capela do Convento português de São João de Deus (em Olivença, naturalmente).
Quer se queira, quer não, fez-se História: pela primeira vez desde 1801, a Língua Portuguesa manifestava-se livremente em Olivença, com a "cobertura" das autoridades espanholas máximas a nível local e regional.
Quase 200 pessoas foram testemunhas disso, entre as quais o arqueólogo Cláudio Torres, o "herói" do mirandês Amadeu Ferreira, e outros!
Vale a pena fazer um resumo do que então se passou.

A JORNADA DE FEVEREIRO DE 2008
Falou primeiro o Presidente da Junta da Extremadura espanhola, Guillermo Fernández Vara. Curiosamente, um oliventino. Foi comovente ouvi-lo confessar que, na sua casa paterna, o Português era a língua dos afectos. O Presidente da Câmara de Olivença, Manuel Cayado,falou em seguida.
Joaquín Fuentes Becerra, presidente da Associação "Além Guadiana", destacou e insistiu no aspecto cultural da Jornada.
Juan Carrasco González, um conhecido catedrático, falou depois.
Seguiu-se Eduardo Ruíz Viéytez,Consultor do Conselho da Europa, que explicou as recomendações críticas deste, ao Estado Espanhol, em relação ao Português de Olivença.
Falou depois Lígia Freire Borges, do Instituto Camões, que destacou o papel da Língua Portuguesa no mundo. Após o almoço, foi a vez de ouvir a voz de alguns oliventinos, em Português, bem alentejano no vocabulário e no sotaque, não faltando críticas e denúncias de situações de repressão linguística não muito longe no tempo.
Falram depois Domingo Frade Gaspar (pela fala galega) e José Gargallo Gil (Línguas minoritárias).
Seguiu-se Manuela Barros Ferreira, da Universidade de Lisboa, que relatou a experiência significativa de recuperação do Mirandês.
Falou finalmente o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, a propósito dos projectos de salvaguardar o dialecto barranquenho.
No final, foi projectado um curto filme sobre o Português oliventino, realizado por Mila Gritos (Milagros Rodrígues Perez). Nele surgiam oliventinos a contar a história de cada um, sempre em Português.
Deu por encerrada a sessão Manuel de Jesus Sanchez Fernandez, da Associação Além-Guadiana.
Os assistentes e os promotores da Jornada abandonaram o local, já de noite, convictos de que tinham assistido a algo notável.
Estava dado um passo de gigante para a recuperação de cultura lusa em Olivença.
Cerca de um ano, um pouco mais, depois, nova surpresa!

TOPONÍMIA EM PORTUGUÊS
A Câmara Municipal de Olivença decidiu começar a recuperar os antigos nomes em português das ruas da localidade. A iniciativa partiu, claro, da associação cultural Além Guadiana, apresentou à Câmara e aos diferentes representantes políticos de Olivença um projeto pormenorizado para a valorização da toponímia oliventina, com unânime aceitação.
O projeto, com início a 12 de Junho de 2010, e que prossegue, estando já quase conluído em Janeiro de 2011, contempla a adição dos antigos nomes das ruas aos atuais, mantendo a mesma tipologia e estética nas placas. Assim, resgatam-se as denominações das ruas, dos becos,das calçadas, etc., que configuram o conjunto histórico encerrado nas muralhas abaluartadas, com um total de 73 localizações.
Recorde-se que a maior parte da toponímia urbana de Olivença foi ubstituída ou modificada na primeira metade do século XX, embora quase todos os nomes continuassem a ser utilizados pela população apesar das alterações, como nos casos da rua da Rala, da rua da Pedra, da Carreira, etc.
A Associação "Além Guadiana", num comunicado, esclarecia: «os antigos nomes das ruas falam-nos do passado português da "Vila", como popularmente é conhecida a cidade, desvelando aspetos diversos, amiúde desconhecidos, da sua história.
Estes remontam a séculos atrás, muitos deles à Idade Média, aludindo a pessoas ilustres da História, a antigos grémios de artesãos, a santos objeto da devoção popular ou à fisionomia das ruas, entre outros aspetos. "A rua das Atafonas, a Calçada Velha, o Terreiro Salgado e o beco de João da Gama" são alguns exemplos.» Mais dizia a comunicado. «Com esta iniciativa pretende-se, enfim, realçar um interessante componente da rica herança cultural oliventina, a toponímia, contribuindo para testemunhar a história partilhada deste concelho e para a tornar visível em cada recanto intramuros. Os nomes ancestrais dos espaços públicos conformam uma janela que convida a assomar-se e a explorar a apaixonante história de Olivença.
Expressados na sua
originária língua
portuguesa, constituem o testemunho vivo de uma cidade onde se respiram duas culturas e são um veículo que encoraja os mais novos a manter a língua que ainda falam as pessoas mais velhas do município. Para a associação Além Guadiana, trata-se de uma iniciativa com fins didáticos, culturais e turísticos, com a qual se resgata para o presente uma parte do passado oliventino.»

UMA ESPÉCIE DE «DIA DE PORTUGAL»... DOIS DIAS DEPOIS

A inauguração das primeiras ruas com os nomes em Português, teve lugar no meio de uma espécie de festival promovido pela Associação citada, denominado «Lusofonias». No sentido de promover a cultura e a língua portuguesa, a organização do evento elegeu como imagens promocionais da iniciativa Amália Rodrigues, Fernando Pessoa e Vasco da Gama.
A "Além Guadiana" justificou estas escolhas: «São ícones de Portugal e da sua história. Como curiosidade posso dizer que os familiares de Vasco da Gama são originários de Olivença e desta forma vamos relembrar esse facto.» A iniciativa cultural contou com a colaboração do Ayuntamiento de Olivença, da Associação para o Desenvolvimento Rural da Comarca de Olivença e da Junta da Estremadura, e consistiu ainda num vasto conjunto de actividades, entre as quais se destacaram peças de teatro, música, literatura e animação de rua.
Em paralelo, houve uma zona reservada a exposições, onde estiveram artesãos, um espaço dedicado à gastronomia e a instituições do espaço lusófono, bem como trabalhos ao vivo e animação musical a cargo de grupos de Portel (Évora).
Procedeu-se a uma leitura pública contínua em português, na qual participaram oliventinos de todas as idades lendo ou recitando na língua de Camões, Este foi um dos pontos altos que a organização destaca deste dia dedicado ao mundo lusófono.
Durante a manhã ocorreu também uma demonstração de folclore, através do grupo "La Encina" de Olivença e a atuação das Cantadeiras de Granja (Évora).
No período da tarde foi projectado no Espácio para la Creación Joven, o filme "O Leão da Estrela", e houve actividades de animação nas ruas, bem como ainda a atuação dos alunos de português da escola pública Francisco Ortiz, de Olivença.
A "Estória da Galinha e do Ovo" e "O Canto dos Poetas", ambos interpretados pela associação "Do Imaginário" de Évora, foram dos atractivos desta iniciativa promovida pela associação "Além Guadiana".

UM MERCADO MENSAL
O final de 2010 e o princípio de 2011 viram realizar-se mais uma iniciativa deste prolixo grupo oliventino: um mercado mensal de artesanato e antiguidades portuguesas. O primeiro efetuou-se a 11 de Dezembro de 2010, o segundo a 8 de Janeiro de 2011. O terceiro em 12 de Fevereiro de 2011.
Pela primeira vez, em mais de duzentos anos, ressurgiu o mercado antigo tradicional de Olivença era aos Sábados, nas suas características originais. Na verdade, este evento efetua-se num local distinto do mercado mais convencional (Adro da Igreja manuelina da Madalena), que é no mesmo dia da semana.
Foi curiosa a primeira edição, não só pelo afluxo de interessados, mas também por algumas das motivações expressas. Muitas louças tradicionais (do Redondo, por exemplo), e mobiliário, também tradicional, foram adquiridos porque lembrava aos compradores objectos vistos em casa de antepassados seus, onde constituíam uma espécie de relíquias. Note-se que, na falta do seu tradicional mercado, muitos oliventinos, durante mais de cem anos, se deslocavam a Elvas ou a outras localidades, procurando obter os produtos (então de utilidade doméstica, ou de decoração) a que estavam tradicionalmente habituados.

INTEGRAÇÃO NA LUSOFONIA
"A língua de Camões fala-se ininterrompidamente em Olivença desde finais do século XIII". Estas são palvras do Presidente da Associação Além Guadiana, o já citado Joaquín Fuentes Becerra, "Este o mais importante legado português. Até meados do século XX, 150 anos após a mudança de nacionalidade, a língua maioritária era o Português, apesar de não ter tido qualquer apoio institucional". Becerra acrescenta que, hoje em dia, para além de conservada pelos mais velhos, a língua portuguesa já está a ser ensinada nas escolas.
"Estamos no caminho correto, mas faz falta uma aposta mais forte para que a língua portuguesa não se perca em Olivença. A língua é tudo". E, sem abordar aspectos políticos, Becerra reclama para a localidade a sua "INTEGRAÇÃO NA LUSOFONIA".
Parece que algo de novo, e talvez um tanto inesperado, está a surgir no espaço lusófono. Ignorá-lo, fingir que não existe, começa a ser impossível. E insuportável!

As autoridades oliventinas recuperam os nomes portugueses das ruas

TEXTO BILINGUE

Olivença recupera as suas ruas

A Câmara Municipal de Olivença começou a recuperar os antigos nomes em português das ruas da localidade. A iniciativa parte da associação cultural Além Guadiana, que há um ano apresentou à Câmara e aos diferentes representantes políticos de Olivença um projeto pormenorizado para a valorização da toponímia oliventina, com unânime aceitação.
O projeto contempla a adição dos antigos nomes das ruas aos atuais, mantendo a mesma tipologia e estética nas placas. Assim, resgatam-se as denominações das ruas, dos becos, das calçadas, etc., que configuram o extenso casco histórico encerrado nas muralhas abaluartadas, com um total de 73 localizações. Tudo irá acompanhado de um simbólico ato inaugural e da edição de brochuras turísticas bilingues.
A maior parte da toponímia urbana de Olivença foi substituída ou modificada na primeira metade do século XX, embora alguns dos nomes continuem a ser utilizados pela população apesar das alterações, como nos casos da rua da Rala, da rua da Pedra, da Carreira, etc.
Os antigos nomes das ruas falam-nos do passado português da “Vila”, como popularmente é conhecida a cidade, desvelando aspetos diversos, amiúde desconhecidos, da sua história.
Estes remontam a séculos atrás, muitos deles à Idade Média, aludindo a pessoas ilustres da História, a antigos grémios de artesãos, a santos objeto da devoção popular ou à fisionomia das ruas, entre outros aspetos. A rua das Atafonas, a Calçada Velha, o Terreiro Salgado e o beco de João da Gama” são alguns exemplos.
Com esta iniciativa pretende-se, enfim, realçar um interessante componente da rica herança cultural oliventina, a toponímia, contribuindo para testemunhar a história partilhada deste concelho e para a tornar visível em cada recanto intramuros. Os nomes ancestrais dos espaços públicos conformam uma janela que convida a assomar-se e a explorar a apaixonante história de Olivença. Expressados na sua originária língua portuguesa, constituem o testemunho vivo de uma cidade onde se respiram duas culturas e são um veículo que encoraja os mais novos a manter a língua que ainda falam as pessoas mais velhas do município. Para a associação Além Guadiana, trata-se de uma iniciativa com fins didáticos, culturais e turísticos, com a qual se resgata para o presente uma parte do passado oliventino.

Olivenza recupera sus “ruas”

El ayuntamiento de Olivenza va a recuperar los antiguos nombres en portugués de las calles de la localidad. La iniciativa parte de la asociación cultural Além Guadiana, que hace un año presentó al ayuntamiento y a los distintos representantes políticos de Olivenza un proyecto detallado para la valorización de la toponímia oliventina, com unánime aceptación.
Dicho proyecto contempla la adición de los antiguos nombres de sus calles a los actuales, manteniendo la misma tipología y estética en las placas. Se rescatan así las denominaciones de las “ruas” (calles), “becos” (callejas), calçadas (calzadas), etc. que configuran el extenso casco histórico que encierran sus murallas abaluartadas, con un total de 73 localizaciones. Todo ello se acompañará con un simbólico acto inaugural de las placas (el próximo 12 de junio) y con la edición de folletos turísticos bilingües.
La mayor parte de la toponimia urbana de Olivenza fue sustituida o modificada en la primera mitad del siglo XX, si bien algunos de los nombres siguen siendo utilizados por la población a pesar de las alteraciones, como en los casos de la calle de la Rala, la de la Piedra, la Carrera, etc.
Los antiguos nombres de las “ruas” nos hablan del pasado portugués de la “Vila”, como popularmente se conoce a la ciudad, desvelando aspectos diversos, a menudo desconocidos, de su historia. Éstos se remontan a siglos atrás, muchos de ellos a la Edad Media, aludiendo a personas ilustres de la Historia, a antiguos gremios de artesanos, a santos objeto de la devoción popular o a la fisonomía de las calles, entre otros aspectos. La “rua das Atafonas”, la “Calçada Velha”, el “Terreiro Salgado” y el “beco de João da Gama” son algunos ejemplo de ello.
Con esta iniciativa se pretende, en definitiva, poner en valor un interesante componente de la rica herencia cultural oliventina, la toponimia, contribuyendo a atestiguar la historia compartida de este municipio y a hacerla visible en cada rincón intramuros. Los nombres ancestrales de sus espacios públicos conforman una ventana que invita a asomarse y a explorar en la apasionante historia de Olivenza. Expresados en su originaria lengua portuguesa, constituyen el vivo testimonio de una ciudad donde se respiran dos culturas, y son un vehículo que anima a que los más jóvenes mantengan la lengua que aún hablan las personas mayores del municipio. Para la asociación Além Guadiana, se trata de una iniciativa con fines didácticos, culturales y turísticos, con la que se rescata para el presente una parte del pasado oliventino.
Publicado também em Além Guadiana