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COSÌ FAN TUTTE!


Così Fan tutte foi a ópera levada à cena no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz, totalmente produzida no Alentejo pela Contemporeaneus, com sede em Estremoz, numa versão contemporânea de qualidade, tal como a orquestra.
Num teatro com características acústicas únicas, que permitiu que a representação fosse realizada sem recurso aos meios sonoros, o que demonstra a qualidade do teatro, para além de ser dos poucos do interior do país que dispõe de fosso de orquestra.
A sala cheia, totalmente esgotada, demonstrou que existe público para este tipo de espetáculos no interior do país e que, se mais houvesse, mais público teria. É esta uma demonstração plena da vitalidade da sociedade civil do interior, pese embora todos os problemas de desertificação a que temos vindo a assistir ao longo dos anos.
Tive o prazer de assistir a esta ópera e de, mais uma vez, ouvir a música sublime de Mozart, génio inigualável.
Mas esta representação trouxe-me à memória outros não menos grandes espetáculos que ocorreram em Estremoz, realizados e organizados pela ETMOZ, presidida pelo Senhor Eng. José Domingos Morais, os Concursos Internacionais de Canto Tomás Alcaide.
Tomas Alcaide um dos nossos maiores cantores líricos de renome internacional, foi o mote para a organização de um concurso internacional de canto lírico, em Estremoz, sua terra natal, que trouxe a esta cidade uma grande quantidade de cantores internacionais para nele participarem.
Estremoz foi o palco internacional do canto lírico nos dois concursos que se realizaram, projectando-se internacionalmente pela música, tornou-se conhecida por esse facto, para além do júri internacional que presidia ao concurso.
Foram dois grandes momentos altos de cultura em Estremoz, num concurso que durava uma semana, desde os ensaios à final, todos eles realizados no Teatro Bernardim Ribeiro, que, tal como aconteceu nesta ópera, estava totalmente cheio, mesmo durante os ensaios que se realizavam em dias de semana.
Isto é a mais pura demonstração da existência de público para este tipo de eventos, com a presença das mais variadas pessoas e faixas etárias, pelo que não se pode afirmar que sejam espetáculos de elite.
Mas, como acontece em Portugal, tudo o que é bom acaba depressa, quando alguém do poder público sente que pode aproveitar eventos desta natureza, começando a criar situações que levam a um desfecho infeliz, perdendo-se todo um trabalho de enorme valor e de valorização da terra.
Um concurso que teve uma aceitação internacional e nacional de grande relevo, poderia ser hoje, o ponto de encontro do canto lírico a nível internacional, que, para além de projectar Estremoz no mundo, conferia-lhe um inegável valor cultural, ganhando com ele.
Estremoz seria hoje uma referencia do canto lírico, no contexto internacional, ganhando toda a economia local, em todas as suas vertentes, se tivesse sabido preservar a continuidade da realização do Concurso Internacional de Canto Tomás Alcaide.
É caso para dizer: così fan tutte menos Estremoz!

O problema das obras na Praça de Touros de Estremoz

A actual Praça de Touros de Estremoz foi inaugurada a 3 de Setembro de 1904, após reconstrução da primitiva Praça de Touros de Santa Catarina, que inaugurada a 25 de Julho de 1878, acabaria em ruínas e no abandono.

PRAÇA DE TOUROS DE ESTREMOZ - 1ª década do século XX (Cliché M. & R.)

PRAÇA DE TOUROS DE ESTREMOZ - 1ª década do século XX (Cliché E. Vieira).

106 anos depois dessa ressurreição, o estado de ruínas e de abandono repete-se. Como se as tragédias tivessem que se repetir ciclicamente. Mas não, o que se repete é a incúria de uns e a indiferença de outros.
Por isso, porque o candidato do PSD à Câmara Municipal de Estremoz, incluiu a Praça de Touros no seu Programa de Candidatura e porque no Facebook, surgiu o grupo Quero a Praça de Toiros de Estremoz arranjada, JÁ!, achei oportuno produzir uma reflexão em torno do tema.
A tendência actual é transformar as Praças de Touros em Fóruns cobertos, polivalentes, onde a realização de espectáculos diversificados, atrai múltiplos públicos: os aficionados da festa brava, os melómanos que ali podem apreciar concertos e ópera, os apreciadores de ballet, o pessoal da pesada que ali pode curtir o rock de que gosta, os amantes do circo, os amantes do fado, aqueles que gostam de música pimba, de festivais gímnicos ou de sessões de luta.
São diferentes modos de divertimento, correspondentes a diferentes maneiras de estar na vida, que são igualmente respeitáveis num estado democrático.
Só diferentes públicos podem assegurar a continuidade e sustentabilidade da exploração dum espaço deste tipo.
O problema que se põe é que a Praça de Touros de Estremoz é propriedade do Centro de Bem-Estar Social (Asilo), que tal como o(s) empresário(s) tem arrecadado receitas ao longo dos anos e nunca disponibilizou verba alguma para a respectiva manutenção. O estado de conservação da Praça atingiu a dada altura o estado de ruptura, o que conduziu à interdição da sua utilização em qualquer tipo de espectáculos. Numa analogia agrícola, foi como se alguém tivesse praticado agricultura intensiva, com a preocupação única de colher, não ligando àquilo que pudesse acontecer à terra.
Julgo serem evidentes várias coisas:
- O carácter emblemático que a Praça de Touros de Estremoz tem para os estremocenses;
- Não resolve estar a “bater no ceguinho” e zurzir culpas e responsabilidades a A ou B;
- A reconstrução da Praça é uma tarefa que deve unir os estremocenses e não dividi-los ainda mais;
- É suposto que o Centro de Bem-Estar Social (Asilo) não tem capacidade financeira para fazer obras;
- Só quem poderá ter capacidade financeira para o fazer é o Governo ou a Autarquia.
Eu tenho a minha opinião. E ela é que devia competir ao Governo esse financiamento, financiamento minúsculo quando comparado com os financiamentos faraónicos dos estádios de futebol para o Euro 2004, alguns dos quais estão às moscas, revelando que a tentação eleitoralista do cimento ocultou a falta de sustentabilidade dos projectos de exploração.
A Autarquia também poderá e deverá ter uma palavra a dizer. Contudo não poderá deixar de considerar o problema da reconstrução da Praça de Touros, conjuntamente com outros que a preocupam e não poderá deixar de definir prioridades, para bem de todos nós. E até se poderá dar o caso de a reconstrução não ser prioritária. Mas se o for, terá ainda de ver como assegurar o financiamento para o projecto e para as obras, para não falar já das contrapartidas que deve assegurar em termos de exploração futura.
Talvez possa ser uma hipótese meramente académica, mas talvez o Centro de Bem-Estar Social (Asilo), apesar de não ter capacidade financeira para fazer obras, possa ter capacidade, através do dinamismo dos seus dirigentes, para apresentar uma candidatura de financiamento a esses fundos que por aí andam e às vezes até voltam para trás, sem que ninguém os tenha utilizado.
Seja qual for a solução, tem que haver uma. O que me leva a dizer:

- MÃOS À OBRA!

Hernâni Matos
(Amante de festa brava, circo, luta, festivais gímnicos, ballet, concertos, ópera, fado, rock, música pimba e tudo!)