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Comemoração das oito horas de trabalho


COMEMORAÇÃO DAS OITO HORAS DE TRABALHO
(Quinquagésimo aniversário: 1962-2012)


A CEIFA NO ALENTEJO.
Alberto de Souza (1880-1961).
Aguarela sobre papel (14 x 20 cm).

Mais um ano se iniciou, o de 2012 da era cristã.
Para as gentes dos campos do Alentejo, mas também do Ribatejo, este é um ano que tem / deveria ter um significado especial: em Maio, faz cinquenta anos, que os trabalhadores rurais daquelas regiões conquistaram as oito horas de jornada de trabalho diário.
Foi em 1962, apenas doze anos antes do 25 de Abril de 1974, que derrubou o regime do Estado Novo e instituiu a democracia, pelo menos formal, único regime que as gerações mais novas conhecem e, dificilmente poderão imaginar outro.
Por isso, nos dias de hoje, quando tanto se fala de competitividade, que se traduz, de novo, no agravamento dos “factores de trabalho”, inclusive com aumento da jornada de trabalho (para começar, meia hora) e redução dos dias de descanso, tem particular acuidade falar, e reflectir, sobre Maio de 1962.
Não se trata, apenas, de falar, em termos memorialistas, dos conflitos sociais que envolveram os assalariados rurais (sobretudo os temporários) do Ribatejo e Alentejo, muito embora considere que é essencial conservar as memórias , colectiva e histórica, da comunidade – como diria alguém, um povo que não tem memória, não tem futuro.
Mas importante é, também, descortinar como um regime político, como o Estado Novo, se impôs com as suas políticas ao conjunto da sociedade e, em particular, da sociedade rural – desde a procura da auto-suficiência alimentar (e daí a Campanha do Trigo em 1929); o controlo político e social da sociedade através da implantação de um aparelho de repressão ideológica e física alargado a todos os sectores da vida social; a imposição de um baixo custo do trabalho assente em baixos salários e jornadas de trabalho longas (de Sol a Sol); passando pela realização de pequenas obras que permitiam marcar, mesmo junto de aldeias e lugares recônditos, a presença do “novo” regime; iniciativas tendentes a propagar a ideologia das virtudes de um mundo rural, quieto e aldeão, o “verdadeiro povo”, em que a escola, sobretudo a escola primária, teve um papel essencial.
Passando também pelo desemprego generalizado e / ou sazonal; o racionamento, nos anos 40, dos produtos de primeira necessidade (como por exemplo: o pão, o azeite, o sabão, o açúcar, …), a escassez e o elevado preço dos produtos necessários ao sustento das famílias, que originaram “marchas da fome” e concentrações, para reivindicarem “pão e trabalho”, de que o Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz, serviu por diversas vezes de cenário.
E, a partir dos anos 50, com a emergência de sectores industrialistas do regime, que tiveram impacto na agricultura, através da motomecanização e desenvolvimento de sectores ligados à indústria e organização do tratamento e transformação de produtos que não vão directamente da terra para o consumo (vinho, azeite, produtos lácteos), acompanhada com a com a arborização de baldios e outros terrenos incultos (respondendo em boa parte às necessidades da indústria de papel) ou obras de hidráulica agrícola.
É neste período que se assiste a um crescendo de movimentos migratórios para as periferias das grandes cidades – no caso do Alentejo para Lisboa, com fixação significativa nos concelhos da margem sul do Tejo.
Para os que ficaram na terra, é quando a reivindicação das oito horas começa a ter alguma expressão – 1956 – para ser retomada, de forma generalizada no Ribatejo e Alentejo, nas lutas que se desenvolveram nos anos de 1961 / 1962.
Estas algumas questões sobre as quais, aproveitando o quinquenário da conquista das oito horas, interessa construir narrativas que nos permitam conhecer o nosso passado e, porque não, perspectivar o futuro.
Esta é, aliás, uma das funções sociais dos museus.
Porque os objectos têm a possibilidade de se constituírem em significantes e através deles construirmos narrativas, Estremoz, neste caso, tem a vantagem de estar bastante bem equipado com, provavelmente, a maior e melhor colecção de alfaias agrícolas existente no país.
Seria de toda a acuidade, e actualidade, aproveitar o decurso deste ano de 2012 para a concretização de uma exposição referente ao tema da conquista / instituição do horário das oito horas.
Oxalá, e contrariando o que até aqui temos assistido, haja sensibilidade, vontade e capacidade para o fazer. Estou certo que todos beneficiaríamos e Estremoz ficaria bastante prestigiada.


Estremoz, 3 de Janeiro de 2012
Pedro Nunes da Silva

Colecção da Alfaia Agrícola de Estremoz (dá Deus nozes a quem não tem dentes)

RÉS DO CHÃO - Máquina debulhadora (Foto Correia)

A motivação próxima destas linhas é o artigo “Edifício do Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz – Crónica de uma morte anunciada”, da autoria de Hernâni Matos (HM), publicado em suporte de papel no jornal Ecos (23.7.2010) e em suporte electrónico nos blogues “Do tempo da outra senhora” e “Estremoz Net”.
Em primeiro lugar devo fazer uma declaração de interesses: fui fundador da Associação Etnográfica e Cultural de Estremoz (ETMOZ), da qual posteriormente me afastei, por entender que a sua actividade se desviou da finalidade que a tinha motivado e para a qual tinha sido constituída – a preservação, divulgação e desenvolvimento da Colecção da Alfaia Agrícola de Estremoz (CAAE).
No período em que integrei esta associação elaborei, juntamente com Ruy Zagalo Pacheco (entretanto falecido), um primeiro inventário do espólio que constituía a colecção, o qual deu origem à edição de um catálogo descritivo. A importância deste trabalho, que realizámos gratuitamente, decorria:
1º da necessidade de se conhecer, com precisão e objectividade, a composição do espólio existente.
2º dispor de um instrumento que permitisse a elaboração de candidatura(s) a fundos comunitários, no que respeita a medidas direccionadas para o património museológico, que as havia e estavam a ser utilizadas por muitos outros museus de autarquias.
Também em conjunto desenvolvemos diversas diligências no sentido de ser estabelecida uma colaboração com o Departamento de História da Universidade de Évora, a qual nunca se chegou a concretizar por razões, da parte da direcção da ETMOZ, que desconheci.
Feita esta declaração, que adiante se entenderá o sentido, quero felicitar HM pela forma como coloca a questão do “edifício do Museu da Alfaia Agrícola”, directamente associada ao próprio conteúdo, a CAAE. Ou seja, equacionar a CAAE como um todo, em que continente (o edifício) e o conteúdo (o espólio) são objecto, simultâneo, de acção museológica, perspectiva que tenho defendido ao longo dos anos, e que parece só agora começar a colher adeptos.
Neste sentido, é pena que HM não tenha desenvolvido melhor aquilo que introduziu no seu artigo com o subtítulo “Marcos na história de um edifício”. Penso que se HM pretende contribuir para a (re)construção da(s) memória(s) daquele imóvel, não deveria limitar-se à referência de apenas alguns tópicos.
E, em relação a estes marcos / tópicos, gostaria de fazer algumas considerações, sobretudo no que respeita aos anos mais recentes.
Em primeiro lugar, o protocolo estabelecido entre a CME e a ETMOZ, em 1996, em relação ao qual sempre me opus, posição na qual estive isolado.
As razões eram obvias: por um lado a ETMOZ nem sequer tinha meios próprios para assegurar o seu normal funcionamento, quanto mais para assumir a gestão do “Museu da Alfaia Agrícola” (edifício e espólio).
Depois, a própria legalidade do protocolo, que considerei de duvidosa, já que uma situação seria protocolizar bens que eram pertença de uma das entidades envolvidas, nomeadamente a CME, e outra era fazê-lo com bens que apenas lhe estavam confiados – parte da colecção é constituída por peças em depósito, ou seja, diversos particulares confiaram à CME, e só a ela, a conservação, preservação, exposição e mais acções inerentes à sua musealização.
Por último, o protocolo, tal como foi elaborado e estabelecido, dava um sinal de que a autarquia declinava a sua responsabilidade em relação a espólio tão valioso, bem como à conservação do imóvel, situação tanto mais caricata quanto, sendo este arrendado pela CME, e necessitado, já na altura, de intervenção, quer ao nível da cobertura (telhado), quer ao nível das paredes exteriores (incluindo janelas e portas), nunca foi accionado um processo de obras compulsivas, permitindo canalizar o dinheiro das rendas para as intervenções necessárias, processo este que teria que ser da iniciativa da autarquia.
Porque não foi feito? Por desinteresse, por apatia, por ignorância?... se calhar um pouco de tudo.
Um segundo comentário ao artigo de HM, é para aquilo que ele considera que foi a acção do Director do Museu Municipal: “De salientar que ao longo do processo de degradação o Director do Museu (Municipal) e o pessoal de apoio foi incansável, tendo feito tudo o que lhe era humanamente possível para travar essa degradação”.
Confesso que não sei o que é que HM entende por “humanamente possível”. No entanto sei o que se deveria ter sido feito, e até pensei que teria sido feito, dado ser tão elementar, mas que afinal não se fez.
As condições no interior do edifício não eram todas iguais, quer entre os três pisos que o constituem, quer nas diversas divisões de cada piso. Assim: o terceiro piso aconselhava a sua total desocupação por questões de segurança e de condições ambientais; nos outros dois pisos (rés-do-chão e 1º andar) teria sido possível estabelecer duas áreas distintas – uma para reserva (que nunca chegou a ser constituída apesar de constar em relatórios e estudos anteriores) e uma área de exposição, aberta ao público sem condicionalismos.
E a partir de 2006, quando a circulação de pessoas corria sérios riscos? Tratando-se de um edifício com espaços amplos e praticamente sem portas, não teria sido possível colocar rede de capoeira nos sítios de passagem, para evitar a sua transformação num imenso pombal com o que isso implicava / implicou em termos de degradação do espólio?
E em relação às peças mais volumosas, como por exemplo debulhadoras, locomóvel, diversos carros de tracção animal, trilhos, arados, gadanheiras, etc…, não teria sido possível a sua cobertura com uma tela, ou até mesmo plástico, como o que se cobrem as alumiadas de feno e fardos de palha no campo?
E em relação às peças de menor dimensão, que se mantiveram anos consecutivos pendurados nas paredes, em contacto directo com as mesmas, não teria sido possível construir algum mobiliário simples para a sua conservação, cuja execução estaria perfeitamente ao alcance dos serviços da autarquia, bastando para isso fornecer informação adequada?
São soluções técnicas, e friso o termo técnicas, de baixo custo, mas que parece que já não seriam “humanamente possíveis”, embora tivessem evitado estragos significativos, conforme testemunhou a PSP aquando da averiguação do assalto ao imóvel verificado no passado dia 14 de Julho (ver notícia do “Brados do Alentejo”, de 22 de Julho)
E em relação a outras acções, nomeadamente de inventário e aquilo que HM tanto valorizou no seu artigo, e que eu subscrevo inteiramente: a(s) memória(s). Houve preocupação de recolher e/ou registar os testemunhos de antigos trabalhadores agrícolas que trabalharam com aquelas alfaias, e outros actores do mundo rural? É que, independentemente de discursos bem intencionados, estas pessoas vão desaparecendo, restando, depois, apenas os aspectos materiais dos objectos, com os quais, em exclusivo, não é possível organizar um discurso expositivo.
As questões que aqui levantei não têm por objectivo censurar seja quem for, mas chamar a atenção para o que se podia/pode ser feito em prol do núcleo museológico da Alfaia Agrícola, incluindo aqui quer a colecção quer o imóvel, para que não se cometam os erros do passado e se mude de atitude (para que se considere a CAAE como património que é e não como velharias, como parece que tem acontecido), tanto mais que alguns dos actores actuais com responsabilidade na matéria são os mesmos do passado recente.

Estremoz, 8 de Setembro de 2010
Pedro Nunes da Silva

COLECÇÃO DA ALFAIA AGRÍCOLA DE ESTREMOZ - mais uma vez


Este texto foi enviado à redacção do jornal “Brados do Alentejo”, na intenção de vir a ser publicado na edição de 8 de Julho, como réplica ao artigo do director do Museu Municipal de Estremoz, inserido no mesmo jornal na edição de 24 de Junho.

Relativamente ao artigo do director do Museu Municipal de Estremoz (DMME), inserido no nº 740, de 24 de Junho, deste jornal – “Ainda bem que não passa de um sonho”, revisitado” – em primeiro lugar gostaria de agradecer ao seu autor pelo esforço de promoção da minha pessoa. Na realidade eu não sou Dr., mas educador de infância, e foi no exercício dessas funções, ao longo de muitos anos, que me aproximei das problemáticas ligadas ao património museológico e à museologia. Mas enfim, nós, portugueses, temos este hábito provinciano de distribuir títulos de forma generosa a qualquer um.
Como provinciano é o argumento de continuar a designar Museu da Alfaia Agrícola à Colecção da Alfaia Agrícola de Estremoz (CAAE), para não passar a mensagem de diminuição de categoria, conforme é referido no mesmo artigo – como se o essencial fosse a forma e não a substância, como se os museus não nascessem de colecções [1].
Aliás, esta questão da(s) colecção(ões), neste caso da CAAE, parece suscitar algumas dúvidas. Enquanto DMME fala de colecções, eu insisto na utilização do termo no singular – colecção. Não se pense com isto tratar-se de um problema gramatical. Pelo contrário, trata-se de um problema de semântica com diversas implicações.
Em primeiro lugar há que considerar a intenção do(s) colector(es), a pessoa, ou pessoas, que recolheram o espólio que constitui a colecção: embora talvez não tivesse suficientemente explicitado pelo(s) próprio(s), a intenção de tamanha recolha era a preservação da memória da actividade agrícola da região de Estremoz.
Implicitamente, o que aquelas pessoas fizeram, ou pelo menos deram um primeiro passo nesse sentido, foi a transformação dos objectos: reuniram objectos / artefactos que haviam sido criados para determinadas funções (económicas e sociais), para virem a assumir outras funções, não tomados isoladamente, mas integrados num conjunto, a partir do qual se constrói uma narrativa da memória social de uma comunidade, que se materializa na exposição.
É esta mudança de função do objecto, no caso presente, de objecto utilitário / instrumento de trabalho agrícola, para objecto significante, que constitui uma das funções dos museus, e não só.
Por isso que a materialidade dos objectos é importante – quando a matéria de que os objectos são feitos deixa de existir, ou atinge um nível de degradação muito elevado, perde-se também a possibilidade de reconstruir os significados que eles encerram.
No caso da CAAE, a quase totalidade do seu espólio constitui um todo, que nos permite testemunhar e interpretar os trabalhos agrícolas, que completam o ciclo desde a limpeza e preparação da terra para a sementeira, passando pela monda, a ceifa, a debulha, a selecção das sementes para o ciclo seguinte, além de outras actividades paralelas, e factos sociais, directa ou indirectamente relacionados.
É um facto que, do ponto de vista da classificação dos artefactos, eles podem ser “arrumados” de maneira diversa. Por exemplo: preparação da terra, colheita, pastoreio, alimentação, transporte, vinha, azeite, recheio doméstico, iluminação, miniaturização, etc. [2
Mas não é por isso que, como nos quer fazer crer DMME, se venha a falar de colecções.
A CAAE constitui uma unidade, suficientemente coerente apesar da sua extensão, representando este facto uma mais valia, conforme tem sido reconhecido por especialistas que a visitaram.
Afinal, esta divergência entre chamar-se colecção ou colecções ao espólio da Alfaia Agrícola de Estremoz é mais profunda do que parece a distinção entre singular e plural. No primeiro caso – colecção – centramo-nos numa abordagem dos significados que os objectos / artefactos encerram, que remete para a (re)construção de identidades; no segundo caso – colecções – apenas para os aspectos funcionais desses mesmos objectos / artefactos quando eles ainda estavam integrados no circuito da produção.
Não se trata, por isso, de confusões ou imprecisões, mas de concepções museológicas bem distintas, em relação às quais há que fazer opções.
No mesmo artigo, DMME evoca o meu silêncio nos últimos dez anos. Mais uma vez parece que está mal informado, até porque algumas das actividades educativas desenvolvidas pelo Museu Municipal, ao contrário do que reclamou, não foram da sua inspiração. E, em relação à CAAE, DMME naturalmente era conhecedor dos estudos e trabalhos que desenvolvi [3]. Como director do Museu Municipal e igualmente responsável pela CAAE, alguma vez, nestes últimos dez anos, como seria natural, e até obrigação, chamou ou pediu a opinião a alguém? Promoveu alguma iniciativa para avaliação da situação em que aquela colecção se encontrava e procurar soluções? E tem o desaforo de vir criticar pessoa que não tendo qualquer vínculo com o Município, ou qualquer mandato, não tenha, por sua iniciativa espontânea, intervido na preservação da CAAE. Parece que não está a ter bem noção das responsabilidades.
Não vou entrar mais na resposta aos argumentos evocados por DMME, pela razão que não merecem… e até o diminuem. A observação da situação em que se encontra a CAAE, de que o próprio DMME deu testemunho, e do imóvel que a contém, falam por si.
Para terminar não posso deixar passar a insinuação que me é feita de falta de honestidade intelectual, para a devolver inteiramente à procedência.

Junho de 2010

[1] - Branco, Jorge Freitas; Oliveira, Luísa Tiago – “Ao Encontro do Povo II – A Colecção”, Celta Editora, 1994.
[2] - Classificação de acordo com a Société Internacional d’ Ethnologie et de Folklore (SIEF).
[3] - Silva, Pedro Nunes da - “Contributos para a transformação da Exposição da Alfaia Agrícola em Museu” (1994); Silva, Pedro Nunes da – “Alfaia Agrícola de Estremoz – contributos para a sua preservação” (1995); Silva, Pedro Nunes da , Pacheco, Ruy Zagalo – “Colecção da Alfaia Agrícola – Catálogo Descritivo” (1997). Todos estes trabalhos estão depositados na Biblioteca Municipal de Estremoz.



"AINDA BEM QUE NÃO PASSA DE UM SONHO", REVISITADO

Antes de iniciar esta “resposta”, informo os leitores que tive a hombridade de conversar primeiro por telefone com o Sr. Dr. Pedro Silva, relativamente ao artigo que escreveu no pretérito número do Brados do Alentejo – “Ainda bem que não passa de um sonho”. Tive oportunidade de lamentar com veemência a forma como aborda o tema e convidei-o a conhecer o nosso trabalho de forma a fundamentar melhor a sua opinião. O convite foi aceite, estando agora dependente de autorizações superiores.
Ora bem, estranho o artigo do Sr. Dr. Pedro Silva, pelo conteúdo e pelo estilo. Estranho porque esteve os últimos 10 anos no silêncio, enquanto outros trabalhavam para resolver uma situação aflitiva. Todos os Vereadores com quem trabalhei são testemunhas do meu empenho constante, incansável, e do valioso trabalho dos colaboradores do Museu, que mesmo colocando em risco a sua integridade física, dado o estado calamitoso do imóvel, “lutavam” para manter em condições de conservação mínimas um acervo tão vasto e diverso. Sou também testemunha do perigo que correram carpinteiros e pedreiros, que com as suas pequenas intervenções foram minorando (e adiando) a ruína do edifício. É de notar que mesmo depois do encerramento ao público (Abril de 2004), a equipa do Museu ainda esteve cerca de dois anos em acções de conservação e limpeza.
Infelizmente, não foi possível a partir de determinada altura manter o ritmo deste trabalho de conservação do acervo, dado que todas as semanas caía mais um pedaço de tecto ou telhado. Era a vida dos colaboradores que estava em risco e isso não podíamos consentir. Novamente me foi dito pelo executivo de então, que a autarquia não tinha os meios financeiros para adquirir o imóvel e avançar com uma intervenção de fundo. Houve então que tomar uma decisão difícil – ficámos somente a monotorizar o imóvel, de modo a que janelas e portas não ficassem abertas pela ruína, ou fossem vandalizadas e permitissem a entrada de estranhos. Em suma, tudo o que um técnico podia fazer em prol do Museu, foi efectuado. Daí que minimizar o trabalho dos colaboradores do Museu e do seu Director, é incorrecto, diria mesmo, pouco honesto intelectualmente. Dizer que fizémos “muito pouco”, é um acto sem nome.
Estranho também o ataque à integridade profissional do Director do Museu e a ridicularização do seu sonho para este núcleo museológico do Museu Municipal. Acto que só denigre quem o fez e não quem o sofreu. Mas já lá vamos.
Da primeira à última linha, não há uma ideia, um oferecer de ajuda, um reforço positivo face às óbvias dificuldades que se avizinham. Tudo se centra num comentário, sobranceiro intelectualmente, à organização deste sector, com uns confusos conceitos sobre o que é uma Colecção e um Museu… Meu caro, desde 2004 que o Museu da Alfaia Agrícola é um núcleo museológico do Museu Municipal, só mantendo a designação de “Museu” porque o executivo municipal de então (e o que se seguiu, no Regulamento de 2008) assim, e contra a minha opinião técnica, o decidiu. Sentiam estes que se estaria a passar uma mensagem de “diminuição da categoria do Museu da Alfaia.” Quanto ao chamar-lhe “Colecção”, discordo, já que é um acervo diverso composto por várias Colecções (instrumentos de debulha, instrumentos de corte e manuseio de palhas, colecção de metrologia, entre outras). Entendo que o conceito de Núcleo Museológico é o que melhor se adapta. Penso que o Sr. Dr. ficou esclarecido.
Passemos ao meu sonho, que ridiculariza e entende como proposta irresponsável. Este sonho tem por base uma proposta do Sr. Dr. Pedro Borges, da qual o Sr. Prof. Joaquim Vermelho comungava, já com alguns anos e a qual sempre achei muito interessante. É um modo inteligente de revitalizarmos e reabilitarmos uma área em plena zona nobre da cidade (Casa das Fardas, Picadeiro e Paiol), bastante mal frequentada e em ruínas. Que é um projecto difícil face às propriedades, localização e integração em ZEP, concordo plenamente. Impossível? Não, não concordo. Dado que fomos aceites na Rede Portuguesa de Museus (Museu Municipal e seus núcleos museológicos), acto indispensável para acedermos a fundos que permitam a recuperação e reinstalação do Museu da Alfaia noutro espaço, agora é altura de apostar neste projecto. Não sou eu quem decide, mas a solução agrada-me muito. Por mim, a autarquia até pode apostar num imóvel novo (mais barato e adapta-se ao acervo existente e futuro), desde que o acervo saia do edifício onde está, situação insustentável e que já tem consequências visíveis numa parte do acervo.
Não vou entrar em mais pormenores, como os relativos a peças que o Sr. Dr. Pedro Silva já dá como desaparecidas por degradação completa (sem ir ao Museu já lá vão 10 anos!), porque o espaço não é propício, mas tendo a minha honra e dignidade profissional sido alvo de um ataque que considero pessoal pela forma como foi redigido, não podia deixar de dar uma resposta, por mais resumida que fosse.
Não sou contra a sua opinião Sr. Dr., tenha a mesma alguma validade científica/ética ou não! Dar a nossa opinião é um direito. Sou sim contra o modo como esta foi exposta.
Fica ainda o registo que não comentarei uma reacção(ões). Após este esclarecimento, o assunto morreu aqui.
Muito obrigado ao jornal pelo espaço disponibilizado.

in Brados do Alentejo, 24/6/2010.

Colecção da Alfaia Agrícola de Estremoz


"AINDA BEM QUE NÃO PASSA DUM SONHO”

Subitamente, parece começar a falar-se, ou pelo menos o director do Museu Municipal de Estremoz, do Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz.
Na realidade, houve tempo em que praticamente a qualquer colecção que se expunha, de forma mais ou menos púbica, se dava vulgarmente o nome de museu.
Mas a realidade actual é bem diferente, sendo a criação e funcionamento dos museus, com explicitação das suas funções e estrutura funcional que elas implicam suficientemente definidas para não permitir equívocos.
Efectivamente, a Colecção da Alfaia Agrícola de Estremoz (CAAE) representa um "espólio” suficientemente importante e significativo, quantitativa e qualitativamente, quer para o município de Estremoz, quer para a região do Alentejo em que estamos inseridos, poderia por isso, só por si, constituir objecto de um museu
Contudo, parece-me não ser viável, num município como Estremoz com os recursos que tem / não tem para a cultura, em particular para o(s) museu(s), e onde já existe um museu municipal, criar uma nova estrutura museológica tutelada pela autarquia. Assim, será melhor, porque mais adequado e eficaz, conceber a CAAE como um pólo museológico do Museu Municipal já existente, perspectiva mais coerente com as funções de um museu desta natureza (municipal), que se deve assumir do respectivo território, por isso polinuctear, tanto mais que, pela própria natureza do acervo da CAAE, a sua interpretação implica, inevitavelmente, a sua contextualização, a qual passa pelo território onde estes instrumentos de trabalho tiveram utilização. Por outro lado, é nesse território que ainda perduram inúmeros artefactos - azenhas, lagares de vinho e de azeite, moagens, eiras, montes com acento de lavoura, noras, ... - que interessava serem objecto de acção museológica.
São opções que se tomam, que definem um programa museológico, sobre o qual convirá ter ideias definidas, a fim de não se perder mais tempo que, no caso presente tem tido consequências desastrosas.
A segunda questão: o surgimento súbito de notícias relacionadas com a CAAE e o imóvel em que a mesma tem estado instalada, nomeadamente em jornais e na rádio.
Quem lê o artigo do Brados do Alentejo, de 13 de Maio - "Acervo do Museu da Alfaia Agrícola reabre ao público" - parece que a situação da CAAE e do respectivo imóvel que a tem "abrigado", outrora pertença da Federação Nacional dos Produtores de Trigo, é nova e, se calhar, inesperada.
Desde há vários anos que existem diagnósticos feitos (eu próprio elaborei um em 1994, o qual foi entregue ao Município de Estremoz) e até propostas de intervenção urgente, quer ao nível da conservação e preservação do acervo, quer do próprio edifício.
O que foi feito? Parece que nada ou, na melhor das hipóteses, muito pouco.
Desde a disposição de diversos elementos da colecção, de forma imprópria, até a falta de uma reserva que, para já não falar de ciência, o simples bom senso aconselharia, ou a mínima conservação do edifício, conforme se pode observar ao passar pelas rua Serpa Pinto e de S. Pedro, são inúmeras as situações que potencialmente e de facto iriam conduzir à degradação inevitável tanto do acervo como do imóvel.
Só a falta de conhecimento, por parte dos munícipes de Estremoz, da situação em que se encontra a CAAE, e do valor patrimonial que a mesma representa, tem permitido que ainda não se tenha criado um sentimento generalizado de indignação.
O próprio director do Museu Municipal dá-nos motivo de preocupação ao afirmar que "o acervo, de facto, não está nas melhores condições e será necessário realizar acções de recuperação, de limpeza, de desinfestação e estou preocupado com os couros e madeiras".
Basicamente os materiais que estão incorporados no acervo da CAAE são: madeira, couro, cortiça, metais, algumas fibras, incluindo tecidos. Existem ainda alguns elementos em corno e barro. De todos, os mais sensíveis do ponto de vista da conservação, os tecidos são os mais delicados. Será que a omissão do director do Museu em relação a peças desta natureza significa o seu desaparecimento, por degradação completa? E em relação aos couros e madeiras, conhecendo os cuidados a ter com a sua conservação, a situação de preocupação mencionada pelo director do Museu só é possível na sequência de um abandono total por período longo.
Mas falemos do futuro!
De novo, o director do Museu Municipal esclarece-nos nos que o acervo vai ser transferido, para um armazém junto aos silos (Agrigénese) em terrenos da antiga estação de caminho de ferro, mas confessa "que o seu sonho era que este (o acervo} fosse transferido para a "Casa das Fardas", situada junto ao castelo"...
Quando soube da notícia, ainda no mandato da Câmara anterior, até saudei a iniciativa, não por discordar da utilização do edifício da Rua Serpa Pinto, onde o acervo se encontra actualmente, o qual desde sempre esteve ligado à lavoura e faz parte da memória da cidade, memória essa que é necessário preservar nomeadamente através da requalificação de alguns imóveis, mas como situação limite para salvaguardar esse mesmo acervo. Há, portanto, que acautelar o processo de transferência do acervo, e a utilização do "novo" espaço, no qual é necessário prever diversas funcionalidades e equipamentos.
Quanto ao "'sonho" do director do Museu de instalar a CAAE na antiga "Casa das Fardas”, ainda bem que não passa dum sonho.
É evidente (?) que a concentração do património museológico fica muito mais "bonitinho" Mas... tem, por acaso, o senhor director, noção do valor e dos recursos necessários à recuperação da "Casa das Fardas", das entidades envolvidas, dos precedentes que já ocorreram? Parece que não, caso contrário o seu sonho arrisca-se a tomar num pesadelo.
Mas, mesmo sendo possível considerar esta hipótese, haveria vantagem na concentração do património museológico, tendo em conta a sua diversidade e especificidade?
Seria bom que, quem tem competência para toma decisões sobre o futuro da Colecção da Alfaia Agrícola tenha sensibilidade e a noção de que este acervo constitui um património colectivo. Que a acção museológica que tem esta colecção como objecto deve, necessariamente, envolver quantos estiveram na sua génese - incluindo doadores e depositantes dos elementos que compõem hoje o acervo, trabalhadores rurais e de outras profissões nele representadas.
Junho de 1010
Pedro Nunes da Silva