Prescritores e prescrições
Quando viajo de automóvel, sozinho, a minha companhia é a rádio. Ouço música, escuto atentamente programas temáticos, rio-me com o humor do “Tubo de Ensaio” ou do “Governo Sombra” e, finalmente, aproveito ainda para ficar a par das notícias do país e do mundo. Curiosamente, os noticiários radiofónicos cativam mais a minha atenção e, ao mesmo tempo, desencadeiam em mim uma reflexão mais intensa em relação aos factos relatados e às opiniões veiculadas que os seus homólogos televisivos. Talvez seja pela ausência de imagens, talvez seja por serem mais objectivos, a verdade é que capto melhor as mensagens e as opiniões associadas a cada notícia quando as ouço na rádio.
A crónica de hoje tem a ver justamente com algumas das notícias que ouvi esta semana. Por exemplo, ouvi o bastonário da ordem dos médicos indignar-se com a possibilidade de os medicamentos de marca prescritos poderem vir a ser substituídos pelos seus equivalentes genéricos. Sinceramente, não vi qualquer razão atendível para justificar tanta indignação. Salvo melhor e mais fundamentada opinião, a responsabilidade médica termina com a prescrição da substância activa cuja toma vai combater as maleitas dos pacientes. É do INFARMED a responsabilidade de garantir que um genérico tem efectivamente a mesma composição química que o medicamento de marca, cuja patente caducou pelo mero decurso do prazo que garantiu a exclusividade de comercialização (ou de licenciamento da produção) ao laboratório que criou o fármaco. Em princípio, aquele prazo foi suficiente para ressarcir a empresa que desenvolveu o medicamento pelo esforço financeiro associado à respectiva investigação e desenvolvimento experimental. Findo o prazo, os preços de tais medicamentos devem estar sujeitos às demais leis do mercado, não devendo ninguém ser obrigado a pagar mais que o estritamente necessário.
Outra notícia que me fez pensar teve que ver com as reacções de algumas pessoas à intenção de automatizar as portagens e, consequentemente, limitar os pagamentos em níquel, em especial nas futuras ex-SCUT (auto-estradas até aqui não portajadas). Que pagar não agrade a ninguém, até compreendo, agora quando me falam que os dispositivos electrónicos associados às portagens (seja Via Verde, chip ou outros) são um atentado à reserva da vida privada já acho, manifestamente, um exagero. Enfim, adiante. Quem prescreveu uma boa solução para esta situação das futuras ex-SCUT passarem a ser portajadas foi, em 2005, o então Ministro das Obras Públicas e actual presidente da EDP, António Mexia. A opinião que então veiculou era que ninguém pagava portagens na área da sua residência. Na altura concordei e agora continuo a achar que esta era uma boa solução: toda a gente devia ter direito a 100 Km de auto-estrada gratuita. Aqui em Estremoz podíamos ir de Elvas a Montemor sem pagar um tusto… daí para a frente ou pagava ou ia por estradas secundárias. E como isentávamos os residentes? Lá está, com Via Verde ou dispositivo equivalente… Quem se sentisse atacado na sua privacidade pagava as portagens e não se falava mais nisso. Esta era a minha prescrição.
Notas:
Também publicado em ad valorem;
As imagens foram colhidas nos sítios para os quais apontam as respectivas hiperligações.
BIBLIOTECA!
Postado por
Luis Assis
|
terça-feira, 21 de setembro de 2010
|
Marcadores:
Alentejo,
Biblioteca Municipal,
Círculo Estremocense,
Estremoz,
Luís Assis,
Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte
|
0
comentários
Estremoz precisa de uma biblioteca que seja também um espaço que contenha todo o arquivo histórico da Câmara, um dos mais completos do país, porque não sofreu as consequências de terramotos, de inundações ou incêndios.Quando se projecta uma biblioteca, a questão que se deve colocar é a de saber se não existem locais na cidade, já edificados, para a sua instalação, com dignidade suficiente para albergar um espólio histórico desta natureza, para além do acervo propriamente dito da biblioteca, bem como, que tenha condições para a sua utilização por parte dos estudantes, historiadores, curiosos, leitores, interessados, turistas, de entre muitas outras pessoas.
Perante esta realidade foi projectada a construção de uma biblioteca de raiz, nas traseiras da Câmara Municipal de Estremoz, projecto com o qual sempre discordei, quer pela sua localização, quer porque existem edifícios em Estremoz com dignidade e espaço suficiente para albergar a biblioteca, que conferem uma nova vivência a esses espaços e ao local onde se encontram, criando novas vivências na cidade.
A recente aquisição pela Câmara do Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte, um edifício representativo do barroco civil em Estremoz, cuja dignidade e monumentalidade deve ser preservada, mas, para mim, esta aquisição só faz sentido se for para albergar a biblioteca de Estremoz.
É um edifício imponente, com salões amplos e espaçosos, uns decorados a estuque, outros com frescos, que lhe conferem uma dignidade e sumptuosidade que merece ser preservada e vivida, o que acontecerá se a biblioteca for instalada naquele espaço.
A sua localização no centro histórico de Estremoz, mas não no Rossio ou junto à Câmara, permite-lhe conferir toda uma nova vivência naquela zona, dando-lhe uma vertente cultural para além da habitacional e comercial que já existe, sendo um local de excelência para a cultura.
A sua compra e recuperação é, para mim, muito mais importante e confere a quem for o responsável político pela mesma, mais importância do que a construção de mais um edifício para uma biblioteca, pois representa uma preocupação com a história da cidade, com o património edificado, com a sua preservação, com a sua dignidade e procura de novas utilizações, dando uma nova vivência a edifícios vazios e zonas da cidade que serão revitalizadas.
Em termos urbanísticos, ficar ligado à recuperação e preservação de património histórico é muito mais importante e confere maior relevo ao decisor político do que a mera decisão de construir novos edifícios, quando, simultaneamente, existem outros com necessidades de intervenção, em locais importantes da cidade e com capacidade para serem utilizados para outras valências.
Instalar a biblioteca de Estremoz no palácio dos Marqueses da Praia e Monforte é uma decisão política que enaltece quem a tomar, pois será recordado por ter defendido o património histórico de Estremoz, conferindo-lhe novas utilizações e por ter dado vida a zonas e edifícios da cidade.
Publicado também no jornal BRADOS DO ALENTEJO nº 744 (16-10-2010)
JORGE BRANCO NO CENTRO CUILTURAL DE ESTREMOZ
Postado por
Hernâni Matos
|
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
|
Marcadores:
Alentejo,
Assembleia Municipal de Estremoz,
Hernâni Matos,
Jorge Branco,
Labirintos e Galáxias
|
0
comentários
Estremoz I – 2010 – 21x27 cm – Tinta da China sobre papel vegetal
“LABIRINTOS E GALÁXIAS” é a Exposição de Jorge Branco a abrir no próximo dia 18 de Setembro (sábado), pelas 17 horas, na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, na Rua João de Sousa Carvalho, em Estremoz.
A Exposição, da iniciativa da Associação Filatélica Alentejana e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz, é constituída por 33 desenhos a tinta-da-china, tinta estilográfica e esferográfica, sobre papel.
Jorge Branco é natural de Lisboa, onde nasceu em 1930. Geofísico de profissão, trabalhou de 1957 a 1959, em Luanda (Angola), na qualidade de membro do Serviço Meteorológico Nacional. Regressado a Lisboa, mantém-se neste Serviço até 1966, ano em que ingressa no Centro de Cálculo Cientifico do Instituto Gulbenkian de Ciência, onde trabalhou até à sua aposentação em 1986.
Fascinado pelo Alentejo, fixou-se nesta data, nos arredores de Estremoz, cidade que o recebeu de braços abertos e onde de uma forma consequente tem participado em actividades cívicas e associativas.
Espírito de fineza, polifacetado, jornalista e escritor com obra publicada, tem efectuado também incursões em múltiplas áreas do seu eclético interesse: artes plásticas, etnografia, ecologia, coleccionismo, caminhos-de-ferro, etc., na ânsia de percorrer memórias que têm a ver com o mais profundo do seu ego.
Jorge Branco já trabalhou a aguarela e o óleo, mas actualmente, a sua actividade artística centra-se na pirogravura e no desenho.
Na sua opinião, o acto de criação artística é possivelmente uma catarse, a satisfação de necessidades instintivas ou muito recalcadas. Por isso, quando cria, sente satisfação plena.
Não tem preferência por qualquer material ou cor. Para ele, o acto criativo é uma mistura em doses variáveis de autobiografia, onirismo e recriação mais ou menos inconsciente, daquilo que o seu olhar captou.
Sem qualquer formação académica no campo artístico, frequentou, todavia, um curso de gravura, leccionado por Alice Jorge, João Hogan e Júlio Pomar, que o familiarizaram com as técnicas e os materiais. Por isso, não tem qualquer preocupação com a composição ou a gestão do espaço, o que lhe permite trabalhar muito espontaneamente. Dá toda a importância às exposições, já que na sua óptica, é através delas que o criador pode dar às suas obras o verdadeiro destino, que é o de serem conhecidas e apreciadas pelo público.
Em termos de actividades exposicionais, são de salientar as seguintes:
1958 - Exposição Colectiva na Sociedade Cultural de Angola, Luanda;
2006 - Exposição Individual de Pirogravuras, Galeria D. Diniz, Estremoz;
2007 - Exposição Colectiva Estremoz-Artes;
2007 – Exposição Colectiva do Rotary Clube de Estremoz, Hotel Pateo dos Solares;
2008 - Exposição Colectiva do Rotary Clube de Estremoz, Centro Cultural Dr. Marques Crespo;
2009 - Exposição Colectiva do Rotary Clube de Estremoz, Hotel Pateo dos Solares;
A Exposição “LABIRINTOS E GALÁXIAS”, estará patente ao público no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, até 16 de Outubro, podendo ser visitada de 3ª feira a sábado, entre as 9 e as 12 h 30 min e entre as 14 e as 17 h e 30 min.
Uma exposição a granjear certamente a visitação de todos nós.
Hernâni Matos
(Publicado também em ESTREMOZ - EXPOSIÇÕES NO CENTRO CULTURAL)
Estremoz, Rua Direita I – 2007 – 31x23 cm – Tinta estilográfica sobre papel
Securas – 1963 – 20x15 cm – Tinta da China sobre papel
Galáxia – 1965 – 20,5x29,5 cm - Tinta da China sobre papel
O equívoco da produtividade
Uma das causas que mais comummente é apresentada para justificar o atraso relativo de Portugal face aos demais países da União Europeia é a produtividade. São muitos os que fazem coro dizendo que enquanto a nossa produtividade se mantiver em 2/3 da média europeia jamais poderemos almejar um nível de vida comparável ao daqueles que nos servem de referência. Depreende-se, portanto, que a nosso aparelho produtivo não é eficiente, ou seja, que não só temos de produzir mais como, sobretudo, que temos que produzir melhor. Certo? Bom… não vou dizer "errado" mas posso assegurar que esta abordagem também não está completamente certa. Hoje vou procurar desfazer este equívoco que nos persegue.
Vou fazê-lo de duas formas: (1) começando por também fazer coro com os demais dizendo que com esta produtividade não vamos lá…; e (2) depois tentarei demonstrar que, afinal, a nossa produtividade, não sendo óptima, também não é assim tão má. Confuso? Se sim considere-se uma pessoa normal. Esta realidade é complexa; explicá-la ainda o é mais.
Antes de mais clarifiquemos conceitos. A produtividade é um indicador que se obtém relacionando a Valor Acrescentado Bruto (VAB), no numerador, com a força de trabalho em unidades físicas, no denominador. Todavia este indicador não diz que um trabalhador português produz menos que qualquer outro da União Europeia. Diz sim que aquilo que produz vale menos. Aliás, se a relação do VAB for feita com os custos do factor trabalho verificamos algo, aparentemente, paradoxal: a nossa produtividade física – ou seja aquela que relaciona os produtos e serviços criados com a força de trabalho – está até bem próxima da média europeia.
Chegados aqui, pergunta-se porque é o nosso VAB menor: porque os nossos produtos têm menor qualidade? Também não é por aí. Posso inclusivamente garantir que há produtos portugueses comercializados na Oxford Street, em Londres, por um valor 5 vezes superior ao seu custo à saída da fábrica, em S. João da Madeira. Só há um pormenor: não há nada naqueles produtos que os identifique como portugueses, já que são vendidos com marcas comerciais inglesas de estabelecimentos de referência. Mais: se tais produtos, calçado por exemplo, passarem antes por Itália e lá for gravado um logótipo de uma prestigiada marca industrial italiana, então nesse caso já é admissível que o valor de venda junto do consumidor final atinja 10 vezes mais que o valor à saída da fábrica. Como podemos ver, no primeiro caso, o VAB gerado pelos comerciantes ingleses é 4 vezes maior que o gerado pelos industriais portugueses; e, no segundo caso, o VAB de ingleses e italianos é 9 vezes superior ao nosso.
Qual é então a causa maior da nossa reduzida produtividade económica? A resposta é esta: a falta de prestígio internacional de Portugal. No mundo somos conhecidos de duas formas: pela epopeia marítima dos séculos XV e XVI e… pelo Figo e pelo Ronaldo. Nenhuma destas visões confere valor aos nossos produtos.
Notas:
Também publicado em ad valorem
Subscrever:
Mensagens (Atom)








