A propósito da compra do Círculo

Está visto (e comprovado) que não podemos acreditar em tudo o que lemos. As notícias divulgadas hoje pela DianaFM pecam por alguma imprecisão.
Assim, tenho a informar que o custo de aquisição do Palácio denominado dos Marqueses de Praia e Monforte (o palácio é mais antigo que o marquesado da Praia e Monforte) é SIGNIFICATIVAMENTE SUPERIOR aos 250 mil euros anunciados. Na nota de imprensa o Sr. Presidente "esqueceu-se" de referir vai também entregar, a título de pagamento, um lote urbanizado (em rigor, a urbanizar a expensas do Município) na Zona Industrial dos Arcos cujo terreno de implantação custou há alguns anos atrás € 181 532,50. Ora somando 250 com 181 já vamos em 431 mil euros. Se agora levarmos em conta o custo das infraestruturas do lote em referência (incuindo águas, saneamento, sumidouros, bocas de incêndio, telecomunicações, gás industrial, lancis, passeios, asfaltamentos, marcações, rotundas, zonas verdes e regas) a única coisa que temos por certa é que não sabemos quanto custou o Círculo. Só sabemos que será mais que 431 mil euros (bastante mais, aliás). Imaginem um projecto, façam as contas ao que está em causa e arrisquem um número...
Eu sei que aos autarcas em exercício convém publicitar as decisões de uma determinada forma... digamos... politicamente correcta. Se calhar, por muito boas que sejam as intenções, se tivesse sido revelada TODA a verdade (e não, apenas, a parte da verdade que se afigura mais conveniente), podiam eventualmente surgir vozes incómodas a pôr em causa a oportunidade deste investimento, em especial quando se compromete a quase totalidade da capacidade de endividamento do munícipio em imóveis que trazem à ilharga pesados encargos adicionais. Se todos estivermos de acordo que estes investimentos são os de maior prioridade, então tudo bem. Se não forem, então é preciso ter consciência que este investimento é, no mínimo, pouco prudente, já que não gera os necessários retornos em tempo útil de deixarmos o concelho minimamente arrumado até ao final de 2013 (ano em que, provavelmente, a torneira comunitária fecha definitivamente).
Resumindo, aquilo que Luís Mourinha disse não é sequer uma meia verdade (nem sei se será uma terça verdade). Só sei que não acredito - como estou farto de dizer - nem em inocências nem em coincidências. E quem não diz toda a verdade fá-lo-á com alguma intenção que não será certamente a de esclarecer convenientemente.

BOMBEIROS DE ESTREMOZ - O regresso da velha senhora


Alguns dados biográficos:Nome: Esperança. Marca: Dodge Brothers. Matrícula: CH-10-94. Construção: Crysler Corporation Detroit, E.U. América. Ano: 1939. Motor: 6 cilindros em linha. 3919 cc. e 15 cav. Combustível: gasolina. Importação (chassis): SIPA, em 1939. Encarroçamento: H.Vaultier & Cª – Material de Incêndios, em 1940 (foi equipada com um completo conjunto de protecção e combate contra incêndios, incluindo um grupo moto-bomba Magirus e uma agulheta para espuma. Entrada ao serviço: 1940.
Decisão de aquisição: Reunião da Direcção de 18.Jan.1939 (quando da tomada de posse como comandante dos BVE do alferes de Cavalaria, Francisco Valadas Júnior).
Deixou de prestar serviço (por motivos de segurança) em 1968.

No seu registo consta o ano de 1939 como data de 'nascimento' nos EUA e, em Junho desse ano, a sua entrada em Portugal. Em 1940 chegou a Estremoz tendo recebido no baptismo o sugestivo nome de Esperança.
A esperança que nela depositavam as populações quando, em situações aflitivas, aguardavam com ansiedade a sua chegada. É a Dodge Brothers, primeira viatura pronto socorro adquirida pelos Bombeiros Voluntários de Estremoz.
Carregando homens e material ela e a sua inseparável companheira Fé (moto-bomba) iam onde fosse necessário, tanto no concelho de Estremoz como nos limítrofes de Sousel e de Monforte, avisando da sua passagem com o som repenicado e estridente da sua sineta de bordo. O autor destas linhas é um dos que bastantes vezes seguiu nela nas suas deambulações, e na memória tem gravados indelevelmente momentos vividos no combate ao fogo, como por exemplo, numa seara de trigo em Santo Aleixo (Monforte), num estabelecimento comercial na avenida principal em Sousel, nas eiras da vila de Cano, ou na fábrica de cortiças de José 'Pechincha' Sanches, na rua do Mizurado, ali ao lado do quartel, em Estremoz, para só falar destes.
Os anos de trabalho incansável foram deixando marcas e, com a idade e a chegada de outros modernos e mais adaptados meios, como o auto-tanque Chevrolet de 1967 novinho em folha, a Esperança passou para plano secundário e iniciou os primeiros dias do resto da sua vida em caminho acelerado para a sucata. Entrou na 'reforma' em 1968 e o destino foi um antigo barracão emprestado por um empresário local e ali ficou durante anos abandonada e quase esquecida. Em 1983, quando do cinquentenário da fundação dos seus 'donos' ainda participou no desfile e em 1985 acompanhou as suas 'companheiras' no cortejo da mudança para o novo quartel-sede. Todas as outras ali ficaram, mas ela voltou à escuridão do barracão.
Até que em Junho de 2007, o sargento mór (na situação de reforma) José António Ferreira, que comandou o corpo activo dos bombeiros entre 1981 e 1997 cismou que a velhinha Dodge não merecia morrer num qualquer ferro-velho e apresentou um plano para recuperá-la. E o agora vice-presidente da direcção da Associação Humanitária e comandante do Quadro Honorário dos bombeiros, apresentou a ideia com tal entusiasmo, que conseguiu contagiar os restantes elementos do elenco directivo para avançar com o desiderato. E com uma meta bem definida no horizonte: a Esperança regressaria em 2008 nas cerimónias comemorativas das 'Bodas de Diamante' da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Estremoz. Só que chegados aos 75 anos da Associação, com muita pena dos entusiastas pela sua 'cura de rejuvenescimento' a Esperança não estava, ainda, em condições dignas de fazer a sua reaparição.
Por vicissitudes várias esse dia só surgiria em 2010.
No primeiro domingo de Maio, dia 9, a Dodge viajou para Vila Nova de Famalicão onde, garrida e vaidosa, participou no desfile de viaturas clássicas de bombeiros, integrado nas festividades dos 120 anos dos voluntários locais.
E, no seu primeiro desfile a rejuvenescida Esperança foi das mais vibrantemente aplaudidas durante o trajecto, facto que encheu de orgulho os bombeiros Paulo Botas e Joaquim Paulo que, muito ufanos, eram seus tripulantes. Com uma indisfarçável 'pontinha' de vaidade assistiam ao desfile, em representação dos bombeiros estremocenses, o vice-presidente da Direcção (José Ferreira), o comandante do Corpo Activo, Carlos Machado, o 2º comandante do Quadro honorário, Mário Zacarias e o bombeiro João Lopes.
Como dado final refira-se que a Esperança passou pelas mãos dedicadas dos bombeiros Joaquim Paulo 'Jimmy', mecânico da corporação que carinhosamente a foi preparando naquilo que internamente foi possível fazer, do carpinteiro Víctor Santos que lhe restaurou os madeirames da carroçaria e dos utensílios de combate a incêndio, e de muitos outros bombeiros que entusiástica e desinteressadamente, ajudaram no que puderam. Mas a vetusta viatura teve, ainda, que ser submetida no exterior a um tratamento de lifting para lhe corrigir a estrutura e disfarçar algumas rugas. Apesar do muito trabalho a título gracioso de bombeiros e dirigentes, a recuperação ainda ficou em cerca de dez mil euros, angariados a muito custo. Mas valeu a pena. Pois, com a totalidade das suas peças de origem recuperadas, cromados resplandecentes, repintura total de vermelho brilhante a Esperança acordou da sua prolongada letargia e, agora, apesar de passar a maioria dos dias 'encerrada' na cave do quartel-sede, é a coqueluche das suas irmãs e primas mais novas e a menina dos olhos de toda a Corporação dos Bombeiros Voluntários de Estremoz.
E que linda que ela está.

Publicado também no nº738 do Jornal Brados do Alentejo

O Pragmático

Pintura digital de Carlos Paes sobre modelos fotográficos. Posterior caricaturização. Publicada na revista FHM (http://crgpaes.wordpress.com/2009/09/30/papa/).
0
Em 29 de Setembro Cavaco Silva fez no Palácio de Belém uma declaração aos portugueses, na sequência da patética história das escutas a Belém, da qual se pode, no mínimo, dizer que não fez sentido ou então que fez um sentido que só a Cavaco foi possível perceber. As únicas ideias claras que expôs foram que o Presidente acha que ninguém fala em seu nome, a não ser os chefes das suas Casas Civil e Militar, que acha que não é crime um membro do seu staff ter sentimentos de desconfiança em relação a outras pessoas e que descobriu as vulnerabilidades dos sistemas informáticos a investidas do exterior. Tudo o mais que quis confidenciar aos portugueses (as manipulações de membros não identificados, mas identificáveis, de elementos do partido do governo no sentido de colarem o Presidente ao PSD e a tentativa de distrair os portugueses dos verdadeiros problemas que preocupavam os portugueses), independentemente da sua realidade, veio ao mundo num discurso desarticulado, irrazoável, às vezes mesmo ilógico. Cavaco Silva não tem o dom da palavra, mas, ao contrário do que é seu timbre, naquela declaração não foi assertivo. Quando se calou, o país emudeceu confuso. Pensei que era aquela a fífia de que Cavaco havia de ficar refém. Afinal Cavaco, o intocável, também se enredava na escura teia da política menos elevada e, quando se defendeu, por inexplicável falta de eficácia, apareceu como culpado.
A 17 de Maio passado, veio com nova declaração, agora sobre o diploma da Assembleia da República que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Acusando os deputados de não se terem esforçado para encontrar uma solução que evitasse “clivagens desnecessárias na sociedade portuguesa”, decidiu não vetar o diploma. O veto politico devolveria a lei ao Parlamento. Cavaco explicou que tal devolução nada mudaria, uma vez que as forças políticas que se juntaram para aprovar o diploma o fariam mais uma vez passar, obrigando o Presidente a promulgá-lo depois. Olhou, mediu, fez umas contas e decidiu não vetar, porque a lei sempre passaria, sendo melhor não perder com ela o precioso e pouco tempo que Portugal tem para discutir e resolver a “dramática situação em que o País se encontra”. Pôs, como disse, a ética da responsabilidade acima das convicções pessoais e promulgou uma lei que nunca quis.
Um sector conservador e católico da direita portuguesa perdeu a cabeça e lançou-se na busca de uma alternativa a Cavaco para a próxima corrida a Belém. Para eles, esta foi a fífia do Presidente. Cedo perceberão que não há na direita uma alternativa a Cavaco, como já se percebeu pela posição do PP e do PSD.
No meio de tudo isto, eu, que não sou uma devota de Cavaco Silva, vejo-me neste estranho papel de o compreender: Cavaco foi igual a si próprio e, sem sobressaltos, foi exactamente o homem que deu a conhecer aos portugueses. Cavaco é um pragmático e, por isso, o que faz, normalmente, é previsível. Cavaco não decide com o coração, Cavaco avalia a utilidade dos seus actos e determina-se de acordo com essa apreciação. Quem esperava de Cavaco um acto inútil, ou não o conhece, ou julgou, errando, que seria influenciado pelo estreito convívio Papal que antecedeu a decisão.
O Presidente deixou claro o que o ser humano Aníbal pensava, o que sentia, o seu desejo íntimo e decidiu em contrário, explicando de forma prática e lógica as razões por que o fez. Entendo-o, mas não deixa de me arrepiar, por ser muito contrário à minha natureza abrir mão de uma convicção.
Discorri sobre esta promulgação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e sobre o percurso lógico do raciocínio do Presidente da República que nela culminou, não pela decisão, que era previsível, mas pelo que representa na definição do homem que a tomou, em oposição àquele que podemos antecipar ser o seu grande opositor nas próximas eleições para a Presidência da República: Manuel Alegre (agora apoiado pelo PS, sem que consiga perceber se foi ele que engoliu Sócrates ou se foi Sócrates que teve que o engolir). Poderia Manuel Alegre, o Poeta, promulgar uma lei que ferisse as suas convicções íntimas, nas circunstâncias em que Cavaco o fez?
Publicado no Jornal E, nº 3, de 03/06/2010

Unir braços do mesmo rio

Delta do rio Parnaíba (Brasil), um rio que desagua por múltiplos braços. 
0
Perfilho há muito a ideia de que é necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas. Cada um de nós não está atomizado na sua individualidade, uma vez que a própria vida se encarrega de nos integrar em múltiplos grupos com características diversas, nem sempre convergentes.
Alguns grupos são fechados, com códigos de conduta rígidos que a pretexto da pureza de princípios, os incapacitam de dialogar com os restantes. Entre grupos fechados só são possíveis conversas de surdos, já que como não se ouvem uns aos outros, não sabem o que os outros dizem.
Uma atitude distinta é cada um de nós e os grupos em que se insere, procurarem ouvir os outros para perceber o que eles dizem, pensam e querem. Como retribuição podem ser ouvidos e os outros ficarão a saber o que dizemos, pensamos e queremos. É possível então chegar à conclusão de que partilhamos algumas ideias comuns, o que torna possível construir algo em conjunto, facto que introduzirá laços de união entre nós. É a unidade na diversidade.
Com o tempo é possível que a área de partilha aumente, mas também é possível que não. Porém, ficámos a saber o que os outros pensam e a respeitá-los porque nos respeitam a nós. E uma coisa é certa, a partilha é só de coisas que nos unem, não de coisas que nos separam. Podemos com outros partilhar amigos, se não todos, alguns. O que não somos é obrigados a partilhar os adversários. Isso é terreno que não é partilhável.
Uma das muitas coisas que partilho com os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendi a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido de estar hoje, aqui.
Furiosamente independente, serei sempre incisivo, cáustico quanto baste, mas sempre preciso. Serei “O FRANCO ATIRADOR”.

Hernâni Matos
Publicado também no nº 86 do Jornal ECOS

Daniel Cohn-Bendit (legendado português) sobre ajuda econômica a Grécia

Estremoz - Tertúlia Tauromáquica

Postado por:

Jornal E nº3 já nas Bancas


Já está nas bancas a edição nº 3 do Jornal E.


Nesta edição, destaque para o encontro, promovido pelo E, entre os Presidentes de Câmara da Zona dos Mármores. O encontro, que decorreu na Cadeia Quinhentista, está nas páginas centrais deste jornal.


Ainda no E, a não perder:


Câmara de Estremoz compra Círculo

Entrevista com Carolina Mendes

Vinho Amália rende 20 mil euros para a fundação

"Alentejana" com uma chegada a Estremoz

Os novos Directores do CF Estremoz

A Tertúlia Tauromáquica Estremocense


E muito mais...