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Comemoração dos 130 Anos da Biblioteca Municipal de Estremoz

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Bonecos de Santo Aleixo na Junta de Freguesia de Santa Maria

Integrada nas Comemorações locais do 25 de Abril e numa iniciativa da Junta de Freguesia de Santa Maria, teve lugar no Salão da Junta, a partir das 21 e 30 horas, uma actuação dos “Bonecos de Santo Aleixo”, títeres tradicionais do Alentejo que parecem ter tido a sua origem na aldeia que lhes deu o nome. Com o Salão literalmente cheio, foi representado por actores do CENDREV - Centro Dramático de Évora, o “Auto da Criação do Mundo”.
Um aspecto da assistência.
Outro aspecto da assistência.
Os actores-manipuladores foram Ana Meira, Gil Salgueiro Nave, Isabel Bilou, José Russo e Vítor Zambujo. O acompanhamento musical esteve a cargo de Gil Salgueiro Nave.
O espectáculo desenrolou-se num retábulo, construído em madeira e tecidos floridos, o qual reproduz um palco tradicional em miniatura com pano de boca, em que se inclui cenários pintados em papelão e iluminação própria (candeia de azeite).
Um aspecto do retábulo onde decorre o espectáculo
O espectáculo pela sua comicidade, pelo seu ritmo e pelo seu cunho popular fez vibrar o público, que ria a bandeiras despregadas e aplaudia com gosto.
No final, José Maria Ginja, o Presidenta da Junta de Freguesia de Santa Maria era um homem feliz. Está pois de parabéns a Junta, por esta iniciativa que foi de agrado popular e que serviu para assinalar os 36 anos da Revolução dos Cravos.
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SOBRE OS BONECOS DE SANTO ALEIXO
(Dum folheto do CENDREV)
"Os “Bonecos de Santo Aleixo” são títeres tradicionais do Alentejo que parecem ter tido a sua origem na aldeia que lhes deu o nome.
São títeres de varão, manipulados por cima, à semelhança das grandes marionetas do Sul de Itália e do Norte da Europa, mas diminutos - de vinte a quarenta centímetros.
Segundo a tradição, o seu “pai” terá sido um certo Nepomucena, guarda de herdades, ao que parece natural de Santo Aleixo, que vendo-se envolvido numa rixa de que resultou a morte de um homem, se refugiou em S. Romão, Vila Viçosa, perto da fronteira com Espanha, dedicando-se aí, para subsistir, ao ofício de “bonecereiro”.
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Adão e Eva
O estojo de bonecos e textos tradicionais, que eram somente transmitidos via oral, chegaram às mãos de Ti’Manel Jaleca através de sua mulher, que os recebeu directamente de seus antepassados.
Manuel Jaleca, que manteve o espectáculo durante algumas décadas, conheceu entretanto António Talhinhas, camponês dotado de grande poder de improvisação e contador, que veio a imprimir grande dinâmica à companhia, acabando por comprar todo o espólio, passando Jaleca a seu empregado.
No entanto parecem não ter sido estes os únicos “Bonecos de Santo Aleixo”. Já em 1798 o Padre Vicente Pedro da Rosa mandara apreender e queimar, defronte da sua casa uns títeres “a que chamavam de Santo Aleixo e em que figurava desonesta e vielmente um Padre Chanca”, no dizer do Padre Joaquim da Rosa Espanca, in “Memórias de Vila Viçosa”.
Os Bonecos que se apresentam no espectáculo foram pertença da família Talhinhas durante cerca de três décadas e a partir de 1967 “dados a conhecer ao mundo culto” por Michel Giacometti e Henrique Delgado.
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Mestre Sala com as Meninas
Por volta dos anos 75 ou 76 e ainda após uma tentativa por parte da Secretaria de Estado da Cultura para revivificar a sua apresentação, Talhinhas viu-se sozinho e impossibilitado de realizar o espectáculo.
Foi somente em 1978 que o projecto de conservação dos Bonecos se pôde concretizar, graças à intervenção da Assembleia Distrital de Évora, que adquiriu o material ao Mestre Talhinhas.
O Centro Cultural de Évora ficou depositário de todo o espólio, e a recolha do repertório iniciou-se em 1980 com os ensaios de “manipulação” e “elocução” dirigidos pelo Mestre, trabalho que foi concluído durante o ano de 1994 com a recolha de todos os textos tradicionais que a excelente memória de Talhinhas conservou.
Os Bonecos de Santo Aleixo, propriedade do Centro Cultural de Évora, são manipulados por uma “família”, constituída por actores profissionais, que garantem a permanência do espectáculo, assegurando assim a continuidade desta expressão artística alentejana.
Conhecidos e apreciados em todo o país, com frequentes deslocações aos locais onde tradicionalmente se realizava o espectáculo, os Bonecos de Santo Aleixo participaram também em muitos certames internacionais (Espanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Grécia, Moçambique, Alemanha, Macau, China, Índia, Tailândia, Brasil, Rússia, México e França) e foram anfitriões da Bienal Internacional de Marionetas de Évora que se realiza desde 1987.
Os Bonecos originais, assim como o restante espólio adquirido a Mestre Talhinhas estão expostos no Teatro Garcia de Resende, enquanto esperam a criação do Museu dos Bonecos, integrado na rede museológica da cidade.
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Retrato da Família
As réplicas actualmente utilizadas nos espectáculos foram fielmente reproduzidas com a preciosa colaboração de Joaquim Rolo, artesão da Aldeia da Glória e velho amigo da família Talhinhas.
A pesquisa de textos foi assegurada por Alexandre Passos que, acompanhado por Manuel da Costa Dias, garantiu também a recolha do reportório na primeira fase. A partir da fixação da nova “família” dos Bonecos, a conclusão da recolha foi assegurada pelos actores que a constituem.
O espectáculo desenrola-se num retábulo, construído em madeira e tecidos floridos, o qual reproduz um palco tradicional em miniatura com pano de boca, em que se inclui cenários pintados em papelão e iluminação própria (candeia de azeite). Os bonecos são realizados em madeira e cortiça, medem entre 20 e 40 centímetros de altura e são vestidos com um guarda-roupa que permite, como no teatro naturalista, identificar as personagens da fábula contada. A música (guitarra portuguesa) e as cantigas são executadas ao vivo. Os textos, transmitidos oralmente, resultam de uma fusão entre a cultura popular e a cultura erudita."

Igreja de Santo André - História dum Crime

Foto de J. Walowski (cerca de 1900).

“Igreja de Santo André – História de Um Crime”, foi o título de uma exposição fotográfica, que a Associação Filatélica Alentejana, levou a efeito no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz, em Novembro-Dezembro de 2009. Essa exposição teve por finalidade relembrar aos mais novos, aquele que foi, sem sombra de dúvida, o maior crime perpetrado contra o património construído em Estremoz – a demolição da Igreja de Santo André, no ano de 1960. Mas foi também, uma denúncia e um libelo acusatório contra aqueles que foram responsáveis por esse crime: o regime de Salazar, então no poder e em força, pois ainda não eclodira a guerra colonial.
Os meus votos então foram no sentido de aquela exposição constituir um indicador da nossa firme determinação dum julgamento moral à revelia, daqueles que foram responsáveis por esse hediondo crime.
Vejamos em breves palavras, a história do crime que, na verdade, foi a demolição da Igreja de Santo André, em Estremoz.
Diz-nos Marques Crespo em “Estremoz e o seu Termo Regional”, que a Igreja de Santo André, de uma só nave, sete capelas e exterior majestoso, viu abater com muito estrondo a sua abobada, no dia 8 de Outubro de 1940, cerca das 22 horas e 30 minutos, não tendo ocorrido felizmente qualquer desastre pessoal. A partir daí, o culto e a actividade paroquiana passaram a ser exercidos no vizinho templo do Convento de S. Francisco. Diz-nos ainda Marques Crespo, que desde logo foram tentadas as reparações necessárias, que foram sofrendo interrupções, por serem dispendiosas.
Também o semanário regionalista “Brados do Alentejo”, na sua edição de 13 de Outubro de 1940, relata que: “No passado dia 8, terça-feira, petas 22,30 horas, foi a população de Estremoz sobressaltada por um enorme estrondo. Minutos depois, correu pela cidade a noticia de ter desabado a abóbada da nave central da igreja paroquial de Santo André, com 20 metros de comprimento por 10 de largura.
A nova causou ainda algum pânico, pois minutos antes do desabamento, tinham saído do templo os fieis que tomaram parte na devoção do Rosário. Felizmente, porém, não havia, no momento da derrocada, pessoa alguma na igreja, senão estaria Estremoz hoje de luto por muitas famílias.
A abóbada, de há muito largamente fendida, tendo desprendido dela horas antes um pedaço de caliça, estava assim desde o tremor de terra de Benavente, sendo possível ligar agora também a derrocada a um abalo sísmico quási imperceptível, pois que muitas pessoas viram na mesma ocasião em suas casas lâmpadas da iluminação eléctrica a tremer.
O estrondo foi enorme, ouvindo-se a muita distância, e da igreja erguiam-se altas e espessas ondas de pó”.
Muita prosa emocionada foi escrita desde então na imprensa local. E não cabe aqui dar conta dela. Torna-se necessário dar um grande salto no tempo. Em 3 de Maio de 1959, diz J. Barros, articulista do jornal local “Brados do Alentejo”: “Mas então vai ser demolida a Igreja de Santo André?! Ter-se-ia chegado por meio de estudos técnicos adequados à desoladora e dura conclusão de que o edifício em causa sofre de uma progressividade ruinosa à qual pouco ou nada é possível opor?
Ter-se-ia encarado o problema em todos os aspectos técnicos relacionando-os com as possibilidades financeiras de realizar as obras de consolidação e restauro bem definidas pelo estudo do assunto visando a restituição do templo ao culto religioso?
Não se pode supor que nada disto tivesse deixado de ser meditado, estudado e apreciado, pois não é de crer que semelhante resolução — se é que em verdade foi já tomada — houvesse sido a preferida entre as que se oferecessem. A ser assim, teria certamente surgido longa matéria técnica e financeira que fundamentou e justificou a dolorosa solução de demolir a condenada Igreja.
É sem dúvida custoso admitir que o templo ao que parece ora condenado, não tenha possibilidade de reparações e consolidações e que por coincidência singular, seja o local onde ele se encontra erigido, o que merece a preferência para nele construir o Palácio de Justiça.
Mas não haverá em Estremoz, na baixa da cidade, e em ponto central, outro local onde a construção do Palácio de Justiça se possa efectivar sem ter que demolir uma das maiores Igrejas da cidade, desaparecendo assim mais outro templo religioso?"
E depois disto o que se passou? Para ser rápido, há que dar um salto ainda maior no tempo. Sob o título “ESTREMOZ – A DEMOLIÇÃO DA IGREJA DE SANTO ANDRÉ E O PALÁCIO DA JUSTIÇA”, diz o “Diário de Notícias” de 5 de Outubro de 1960: “Começou a demolição da Igreja paroquial de Santo André, em pleno coração da cidade. A restauração da Igreja foi a sua morte. A nova abobada, tinha um corpo que as paredes laterais não suportavam e os técnicos verificaram depois de várias experiências que a derrocada da Igreja seria um facto sem qualquer possibilidade de evitar-se. Autorizada a sua demolição, no mesmo local se erguerá em breve o Palácio da Justiça, cuja construção se impunha, dadas as deficientes e apertadas instalações das repartições locais deste Ministério.”
A Igreja foi demolida e o Palácio da Justiça foi construído. A inauguração deste Palácio da Justiça, que como resultado do crime cometido, se deveria chamar antes, Palácio da Injustiça, foi efectuada a 3 de Abril de 1964, com pompa e circunstância pelo mais alto magistrado da Nação – modo como se designava então, eufemisticamente, o Presidente da República, Almirante Américo Tomaz.
Da inauguração, há registo fotográfico de Rogério de Carvalho. A partir daquela data, tinham impunemente imposto a Estremoz, mais um edifício cinzento e incaracterístico, símbolo de uma distorcida capacidade empreendedora do Estado Novo, que não olhava a meios para atingir os seus fins.
Estremoz ficara então mais pobre. O seu património edificado, por sinal religioso, empobrecera ao ser despojado da vetusta Igreja de Santo André, que apenas por estar ferida, foi condenada à morte, eliminada fisicamente e feita desaparecer do mapa topográfico de Estremoz, que não da memória de elefante dos mais velhos como eu ou ainda mais velhos do que eu. Nunca esqueceremos o crime cometido, nem tão pouco os que o cometeram. Os elefantes são assim.
Honra seja feita aqueles que com as armas possíveis – as palavras – lutaram com convicção e emoção, para que tal não acontecesse. Um destaque muito especial para o padre Serafim Tavares, pároco de São Francisco, homem de púlpito que soube usar a tribuna da imprensa local e foi um dos líderes da resistência ao crime que viria a ser perpetrado.
Hoje um crime destes não seria possível, porque a opinião pública, livre de peias e de mordaças, se mobilizaria em massa para o impedir. Porém, para que cada vez menos, seja possível aconteceram crimes como este, é que exposições como esta são importantes. Para lembrar aos mais novos e às gerações vindouras, aquilo que aconteceu, para alertar consciências e despertar resistências, para memória futura.
Creio que em Évora, aqui bem próximo de nós, um crime destes não teria sido possível, pois desde o primeiro quartel do século XX, mais precisamente desde 1919, que ali existe e está activo o Grupo Pro-Évora, uma Associação de Defesa do Património daquela cidade, cuja acção foi decisiva numa época em que se assistia à mutilação das características históricas mais relevantes daquela urbe. A Câmara Municipal de Évora desenvolveu, de resto, um trabalho notável, pelo que a classificação do Centro Histórico de Évora como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, em Novembro de 1986, foi como dizem os seus responsáveis “o corolário de um longo caminho tendente a salvaguardar o conjunto edificado da cidade intramuros”.
Neste ano de graça ou de desgraça, dependendo do ponto de vista, de 2009, Estremoz ainda não tem uma Associação de Defesa do Património, a qual como órgão independente, lidere a opinião pública, intervindo activamente na defesa do património da nossa cidade. Por isso, porque estamos atrasados no tempo, é muito difícil, se não improvável que alguma vez o Centro Histórico de Estremoz, consiga ser classificado pela UNESCO como Património da Humanidade. Oxalá me engane.
Esta exposição não teria sido possível sem a recolha por nós efectuada, no decurso do tempo, de fotografias e de postais ilustrados, expostos ampliados, em sequência cronológica, procurando mostrar a grandeza tutelar dum templo, o qual para além de local de culto, demarcava um espaço sociológico de convívio cívico que se perdeu. Para além das fotografias registadas por fotógrafos anónimos que trabalhavam para editoras comerciais de postais ilustrados no século XX, merecem especial destaque as fotografias de Wolanski (finais do século XIX - princípio do século XX) e de Rogério de Carvalho e de Tony (2º quartel do século XX), três grandes repórteres fotográficos do tecido urbano e etnográfico da nossa urbe transtagana.
Porém, o que avalizou o registo fotográfico do crime cometido, foram as fotografias obtidas por Manuel Gato, um dos sócios da extinta firma Quadrado e Gato, do Rossio Marquês de Pombal. Foi ele que com a sua elevada consciência cívica e raro sentido de oportunidade e importância de reportagem fotográfica, obteve uma sequência de fotografias, a qual relatam duma forma fria e imparcial, a demolição impiedosa de uma Igreja que era sede de Paróquia. Igreja cuja demolição efectuada em 1960, por ordens do poder salazarista, já havia sido, de resto, alvo na imprensa local, de uma crónica de morte anunciada. Esta a história do maior crime perpetrado contra o património em Estremoz.
Chegados a este ponto, julgo ser opinião unânime dos estremocenses e não só, que neste julgamento à revelia, o réu – o regime de Salazar – deva ser considerado culpado pelo horrendo crime cometido contra o património construído da nossa cidade.
A vítima – a veneranda Igreja de Santo André – nós nem ninguém a poderá restituir à sua existência física, apenas lhe poderemos reservar um lugar muito especial nas nossas memórias e relembrá-la às gerações mais novas.

Hernâni Matos
Também publicado no blog pessoal
http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com
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Foto de Rogério Carvalho (cerca de 1940).


Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Palácio da Justiça. Postal edição Câmara Municipal de Estremoz (1986).

Ainda a propósito do recente falecimento do ex-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, Sr. José Gomes Palmeiro Costa

Ainda a propósito do recente falecimento do ex-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, Sr. José Gomes Palmeiro Costa, gostaria de dar a conhecer aos meus leitores a intervenção que proferi na sessão da Assembleia Municipal de Estremoz do dia 2008/06/27, já lá vão quase dois anos, quando foi recusada, ao Sr. José Costa, a concessão da Medalha da Cidade de Estremoz, Grau Ouro.
Caros amigos, a memória não pode ser curta...
Como na altura disse “Sou daqueles que acham que as homenagens, aos homens bons, heróis ou notáveis, deverão realizar-se em sua vida, para que sintam quão os comuns dos mortais como nós, os admiram e lhes estão reconhecidos, pelas suas obras ou pelos seus actos, dignos ou ousados...”.
Infelizmente, José Costa foi mais um estremocense a quem não foi reconhecido, em vida, o trabalho, a benemerência e dedicação para com o próximo.
Aqui vos deixo a intervenção:
............................///............................
Exma. Sra. Presidente da Assembleia Municipal

Exmo. Sr. Presidente da Câmara
Srs. Deputados Municipais e Srs. Vereadores
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Quando numa anterior Assembleia, me congratulei pelo reconhecimento a 3 ilustres estremocenses, agraciados com a Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro, fi-lo e disse-o, por e na convicção “que são actos como esses que galvanizam os cidadãos e criam condições, para que coloquemos de parte, aquilo que nos divide (as divergências de opinião) e possibilitam que nos unamos, em torno de um projecto comum”.

E disse também que: “Sou daqueles que acham que as homenagens, aos homens bons, heróis ou notáveis, deverão realizar-se em sua vida, para que sintam quão os comuns dos mortais como nós, os admiram e lhes estão reconhecidos, pelas suas obras ou pelos seus actos, dignos ou ousados...”.

Nessa altura apesar de o pensar, não o disse, mas hoje digo também que, mal está a terra, a cidade, o concelho, a região ou o país, que não sabe homenagear condignamente e em vida os melhores dos seus filhos.

Não terá um projecto comum, nem história, nem identidade e não terá certamente futuro risonho.

A identidade de uma nação, de uma região ou de uma localidade, constroi-se na atitude e vivência dos homens, e nos actos relevantes por eles praticados, e transmite-se através da memória colectiva às gerações vindouras.

Quantos serão os que tendo elevado bem alto o nome de Estremoz ou dado muito do seu tempo, da sua dedicação, sacrifícios e muitas vezes do seu bolso, e Estremoz não reconheceu neles em vida, mérito, capacidade, exemplo e dedicação em prol da cidade, do concelho e dos outros concidadãos, para os agraciar ainda em vida?

Muitos terão sido certamente e dou o exemplo, de alguns que ainda penso estarem na memória da maioria dos presentes, mas que já não se encontram entre nós:
Dr. Assis e Santos, José Carlos Tristão Luna, Dr. Crujo, Dr. Paulo Lencastre, Engº Brito Tavares, Armando Alves (pai), Diamantino Godinho, Aníbal Falcato Alves, José Augusto Tabaquinho, Afonso Costa, Dr. Luís Rosado, Carmo Pequito, José de Alter, Eng. Jorge Anjinho, Nini Gonçalves, Padre Carmo Martins, e muitos outros.

A maioria nem sequer teve direito a ter o seu nome numa das ruas do concelho!...

Srs. Vereadores, Srs. Deputados Municipais

Não foi relevante para o concelho a passagem destes senhores, pelo mundo dos vivos?

Reconheço que alguns não poderão responder, por não serem contemporâneos da maioria dos focados.

Mas alguns de nós ainda se lembram do papel relevante para Estremoz e para os estremocenses, que estes tiveram ao longo da sua vida.

Quem se esqueceu do papel relevante que José Luna teve nas várias colectividades por onde passou, nomeadamente, Bombeiros e C F Estremoz?

Quantas milhares foram as consultas em que os Drs. Assis e Santos, Crujo, Paulo Lencastre, se recusaram a receber os devidos honorários, por saberem que os seus utentes não dispunham de capacidade financeira para comer, quanto mais para pagar a sua saúde e dos seus?

Quem não se lembra do papel que desempenharam, algumas das personalidades que indiquei (irmãos Alves, Diamantino Godinho, José Augusto Tabaquinho, irmãos Costa e muitos outros, alguns deles familiares de alguns dos presentes), na consolidação de projectos nas mais variadas colectividades do concelho e na ajuda aos mais necessitados, angariando comida, vestuário e calçado.

Lembram-se do almoço dos pobres, que se realizava, anualmente, nos “Encarnados”.?

Eu ainda me lembro, apesar de vagamente.

E o papel do polémico, mas dinâmico Carmo Pequito, na dinamização e divulgação cultural, desportiva e recreativa da nossa cidade.

Sabem quais foram durante várias décadas, os maiores marcas divulgadoras do nome de Estremoz?

Os Mármores de Estremoz, o Regimento de Cavalaria nº 3, o Sr. José de Alter e o Eng Brito Tavares e os seus ovinos.

Reconhecemos condignamente e em vida, o seu papel na sociedade estremocense?

Deixo a resposta à vossa consideração.

Srs. Vereadores

Vem tudo isto a propósito da recusa, por falta de unanimidade, na concessão da Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro, ao cidadão José Palmeiro Costa.

Admito perfeitamente, que não concordem com o político José Costa, mas sei perfeitamente, que sabem quem foi o cidadão José Costa?

Em questões desta natureza, não nos podemos restringir, à preocupação com o sentido de voto, quando o que está em causa, é o reconhecimento do papel relevante de um cidadão exemplar, em prol da colectividade.

Srs. Autarcas

Em política não vale tudo.

Quando se tomam decisões desta relevância é necessário, que a nossa consciência e o nosso sentido de justiça, estejam livres e desinibidos de preconceitos de qualquer natureza, que nos podem toldar uma qualquer decisão racional.

Com a falta de capacidade para reconhecer condignamente, o papel relevante de alguns em proveito de todos, continuaremos a não ter identidade, a não ter história e a ter um futuro toldado por erros grosseiros dos vários passados, que já passaram e hão-de passar.

A minha esperança é que este episódio, apesar de relevante, tenha sido apenas um pequeno percalço, no longo trajecto que é a vida do nosso todo colectivo.

Obrigado por me terem ouvido

Tenho Dito
José Capitão Pardal

John Philip Sousa - a diáspora portuguesa no mundo

Há muitas formas de aprender e uma delas estava quase esquecida para mim: a rádio. De facto, há muito que reservo à rádio apenas duas tarefas: ouvir notícias; e ouvir música (em geral quando viajo de carro). Ontem, enquanto percorria canais de rádio durante uma pequena viagem ouvi uma reprodução duma marcha militar que já havia ouvido dezenas de vezes: Stars and Stripes Forever.
O que eu não sabia e só ontem fiquei a saber é que o autor desta marcha era luso-descendente. John Philip Sousa nasceu em Washington em 1854, mas era filho de um português nascido em Espanha e, portanto, neto de portugueses de origem açoriana, os quais, segundo a nota biográfica que li, se refugiaram no país vizinho. John Sousa apelidava-se a si próprio "The March King" (O Rei das Marchas) e compôs inúmeras marchas militares, operetas e até os hinos de 4 universidades americanas. A ele se deve a criação do Sousafone, uma imensa tuba carregada ao ombro do músico, a qual visava o reforço dos graves nas suas marchas; e, bem assim, foi também um dos responsáveis pela grande divulgação do piccolo, um flautim que toca uma oitava acima da flauta comum e cujo som recorda o cantar de um rouxinol. (Na marcha abaixo reproduzida - uma reedição de 1931 de uma obra datada de 1909, inicialmente editada pela Thomas Edison Records - é bem audível o som do piccolo).
Enfim, isto pode não interesse nenhum mas achei curioso e... por pouco racional que isto possa parecer, fiquei de certa forma orgulhoso por o John Philip Sousa ser neto de portugueses que, por alguma razão que não descortinei, tiveram que se pisgar de Portugal. É o mesmo tipo de orgulho que sinto quando o Cristiano Ronaldo marca um golo pelo Real Madrid ou quando um estremocense - que não conheço nem conheço ninguém que conheça - vai treinar uma equipa rival da minha preferida.
O bairrismo e o nacionalismo pode ser irracional mas lá que existe, existe.


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MIETZ transformado em Associação Cívica?

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Há cerca de seis meses, mais precisamente no dia 11 de Outubro passado, o MIETZ – Movimento Independente por Estremoz, ganhou as eleições autárquicas.
Para muitos analistas, tratou-se dum efeito que passou desde então a ser designado por “Tsunami Mourinha”, o qual conseguiu congregar votos que no espectro partidário foram do BE ao CDS, com largas fatias arrancadas à CDU e ao PSD.
Para muitos desses analistas, tratou-se duma inequívoca vontade de mudança. Segundo eles, a população maioritariamente cansada da governação local PS, desenvolvida pela equipa de José Alberto Fateixa, fez um “manguito” aos partidos tradicionais que se apresentaram ao eleitorado e alinhou numa “vaquinha” com o MIETZ.
Durante algum tempo falou-se por aí que o MIETZ iria constituir-se em Associação Cívica com o mesmo nome. Associação Cívica com os seus Estatutos reconhecidos notarialmente, com os seus Objectivos Estatutários, a sua Direcção, a sua Mesa da Assembleia-Geral e o seu Conselho Fiscal. Seria uma forma de institucionalizar as pontes de entendimento entre os cidadãos que não se reviram na actuação dos partidos tradicionais. Seria ainda uma forma de aperfeiçoar a intervenção democrática, uma vez que os eleitos do M IETZ teriam que passar a prestar contas perante os Corpos Sociais da Associação Cívica a criar, tal como os eleitos pelos partidos tradicionais têm que prestar contas aos Órgãos de Gestão dos Partidos pelos quais foram eleitos.
Decorridos cerca de seis meses sobre as eleições autárquicas, ainda não se verificou a constituição da Associação Cívica “MIETZ”. Cremos que não terá sido uma vaga promessa eleitoral produzida numa altura em que tudo estava em “ponto de rebuçado”. Estamos mais inclinados a pensar que a ideia inicial apenas esmoreceu.
Longe dos “calores eleitorais”, a ideia não terá morrido, apenas terá ficado em “banho-maria”. O MIETZ resume-se assim neste momento aos eleitos, quando poderia ser muito mais.
Com o exercício do poder, no enleio de urdiduras e de tramas no nosso tecido social, há uma miríade de situações que levam os eleitos a dar golpes de rins, que muitas vezes não se enquadram na cartilha dos objectivos eleitorais.
O homem comum, afastado da dinâmica da participação cívica, deixa de vislumbrar a aura que encima a cabeça dos eleitos, os quais com o decorrer do tempo se tornam cada vez mais homens comuns.
A dinâmica interna dos movimentos é fruto do contra-ponto e do confronto amplo de ideias, que permitem delinear as linhas de força a seguir. Sem elas, movimentos como o MIETZ correm o perigo de esvair-se, bem como o risco inescapável de ficarem balizados no tempo, isto é, a sua eficácia ficar cingida a um único mandato autárquico. Nisso apostam CDU, PS e PSD, partidos do arco da governação autárquica estremocense, uma vez que a demora na constituição da Associação Cívica MIETZ lhes é lhes favorável. Por isso, CDU, PS e PSD agradecem a demora, reconhecidos e atentos, que não veneradores e obrigados.