MIETZ inaugura sede

O MIETZ – Movimento Independente por Estremoz, vencedor das últimas eleições autárquicas neste concelho, inaugura amanhã, sábado, dia 24 de Abril, pelas 20 horas, a sua sede. Esta situa-se no Rossio Marquês de Pombal, no edifício da Misericórdia, nos altos da SAMOR.
A inauguração coincide com um plenário de eleitos, não é pública e só a eles se destina.

Início...


Foi com muita honra e com muito entusiasmo que aceitei o convite para colaborar neste blog. Na verdade, haverá coisa mais estimulante do que nos envolvermos em projectos que tenham como propósito pensar, discutir e projectar a nossa terra?

Considero ser de extrema importância o envolvimento das associações, dos partidos, das várias entidades da cidade e da região e, muito importante, de todos os cidadãos na "causa estremocense", é assim que lhe chamo. Não existem estremocenses de 1ª, nem estremocenses de 2ª. Cada cidadão da nossa cidade, com mais ou menos estudos, com mais ou menos idade, com mais ou menos presença em Estremoz tem o direito e diria mesmo o dever de se envolver na construção de uma cidade cada vez mais de futuro...

Porque cidadão é aquele sobre o qual recaem direitos e deveres, trabalhemos todos nesse sentido. Sempre com o respeito pelas ideias diferentes de cada um. Mas na verdade, devemos preservar sempre essa diversidade...

Para terminar, queria apenas relembrar que a origem etimológica da palavra política, vem precisamente de "polis", de cidade. Apesar de o descrédito ser grande, façamos então política! Trabalhar em prol da cidade é fazer política. Pensem nisso...

I Encontro de Bloggers, Webmasters e Facebookers do Concelho de Estremoz

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Numa iniciativa da Associação Filatélica Alentejana e com o apoio dos membros do blogue colectivo ESTREMOZ NET, tem lugar em Estremoz, no próximo dia 29 de Maio de 2010 (sábado), no Hotel Imperador, em Estremoz, o I Encontro de Bloggers, Webmasters e Facebookers do Concelho de Estremoz.
O Encontro visa o convívio entre todos aqueles que duma forma ou de outra, utilizam a comunicação “on line”.
O Encontro será iniciado pelas 10 h 30 min, por uma reflexão-debate centrada em problemáticas suscitadas pela comunicação “on line”, tais como:
- Liberdade versus responsabilidade;
- Anonimato e Identificação;
- Ética da comunicação;
- Propriedade Intelectual.
Para o efeito foram convidadas personalidades de âmbito nacional, que animarão o debate.
Pelas 13 horas terá lugar o almoço, aberto à participação de Bloggers, Webmasters e Facebookers do Concelho de Estremoz, bem como a seus convidados ou familiares. Ao almoço seguir-se-há animação cultural.
A participação no Encontro e no almoço faz-se mediante preenchimento de um impresso de inscrição e pagamento de 20 euros por pessoa.
Só serão consideradas as inscrições entradas até o dia 22 de Maio, acompanhadas do respectivo pagamento, o que pode ser efectuado por um dos processos referidos no Regulamento do Encontro.
O telefone e email da Comissão Organizadora são os seguintes:

Telefone 937 274 775 (Hernâni Matos)

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O 25 de Abril do Rui

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“CASAS E OUTROS” é uma Exposição a inaugurar no próximo dia 25 de Abril (domingo), pelas 16 horas, na Sociedade Recreativa e Dramática Eborense, na Avenida da Universidade – Zona de Urbanização, nº 3, em Évora.
Trata-se duma Exposição de Pintura do nosso conterrâneo e amigo Rui Simões Alves, que ainda recentemente expôs na Junta de Freguesia de São João de Brito , em Lisboa.
Estamos certos que, mais uma vez, nesta “vernissage” o Rui terá a seu lado muitos amigos que lhe querem testemunhar quanto apreciam o seu trabalho, o que é sempre estimulante.
Esta colectânea de trabalhos do Rui estará patente ao público em Outubro-Novembro, na Sala de Exposições da Associação Filatélica Alentejana no Centro Cultural de Estremoz.

Chegou a Primavera

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CHEGOU A PRIMAVERA !!! - Ilustração de Cristina Malaquias
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Uma das minhas facetas é ser persistente na pesca à linha. E normalmente quando faço um lançamento, apanho peixe.
Ontem, quis o Deus Acaso que desse com o blogue ANJOSIDRAGÕES, da minha amiga  Cristina Malaquias ,“Trinta e cinco anos a ilustrar muitos, muitos livrinhos para os meninos verem, gostarem...e lerem, espero. Qualquer dia conto mais, sobre mim, sobre o que faço, sobre os anjos e também sobre os dragões...” .
Da zona estremocense da Serra D’Ossa, a Cristina dedicou-nos ontem um post de natureza visual (ou não fosse ela ilustradora) intitulado “CHEGOU A PRIMAVERA !!!”. Trata-se de um post centrado no ressurgir da flora e da fauna campestre.
Sugiro que passem a acompanhar o seu blogue, bem como a admirarem as suas belíssimas ilustrações no site "A HISTÓRIA DO DIA".
Cristina Malaquias expôs em Junho-Julho de 2008, na Sala de Exposições da Associação Filatélica Alentejana, no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. Sobre ela escrevi então, com a mesma emoção que subscrevo hoje:
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A VISÃO MÁGICA DAS COISAS
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Um olhar fotográfico que regista a imagem e dela a forma, a volumetria, a medida, a profundidade, a cor, a textura, o contraste, a luminosidade e o brilho.
Um olhar analítico que cruza o ar, no espaço e no tempo e que, no acto visual de dissecar as partes de cada todo, procura nelas os elos de ligação, bem como as harmonias e os ritmos que as hão de reagrupar e reunificar na reconstrução dialéctica do todo.
Um olhar privilegiado que através da miríade de redes neuronais, funciona como um pantógrafo que pictograficamente transmite à mão dextra, o impulso nervoso que não é mais que o feedback visual do raio luminoso que impressiona a sua retina e a sua alma de Poeta.
Mão que empunha um lápis de cor com a mesma determinação olímpica do ganhão que lavra a Terra-Mãe para dela extrair o seu pão de cada dia.
Mãos solidárias e cúmplices com a folha de papel que tacteiam, exploram, afagam e fecundam, ora energicamente ora duma forma mais pausada, mas sempre com a doçura própria de quem ama.
Mãos que vibram como quem dedilha com mestria uma guitarra portuguesa e arranca dela o que de mais profundo tem o sentir da Alma do Povo.
Mãos que sofrem como o olhar ou o pensamento, pois doloroso é o Acto Criador.
Este é, em traços gerais, necessariamente simplificadores e redutores, o esboço tosco do perfil biográfico da ilustradora e desenhadora Cristina Malaquias.
A Artista desculpará a ousadia com que eu, recorrendo à alquimia das palavras, transmutei as emoções que o seu trabalho e Obra, em mim despertam. Mas doutra forma não poderia ter sido.
À Artista agradeço em nome do público, o ter partilhado connosco a beleza da sua visão mágica das coisas: o esvoaçar duma borboleta, o som do restolho pisado, a intensa claridade do sul que ora se acende, ora se apaga, que esse é o ciclo da Vida.
Obrigado, Cristina!
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Aviso à navegação

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Através do meu blogue, acederão facilmente a alfarrabistas, hemerotecas e bibliotecas digitais, como é o caso da BIBLIOTECA DIGITAL DO ALENTEJO.
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Memórias do Espírito Santo

Nasci no número 14 do Largo do Espírito Santo, em Estremoz, no dia 19 de Agosto de 1946.
Nos anos 50, os meus pais mudaram-se para uma casa da rua da Misericórdia, hoje inexistente, mas pelo Largo continuei a viver e a brincar em permanência até 1956, ano até ao qual fiquei na casa dos meus tios, situada no número 17. A vida e os fluxos humanos que por ali se processavam nos anos 40-50 são-me pois familiares.
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Fonte do Espírito Santo – Foto de J. Walowski – cerca de 1900.
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Convento dos Agostinhos – Foto de J. Walowski – cerca de 1900.
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Torre das Couraças – Desenho de Cruz Louro – 1939.
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A passagem do aguadeiro e do leiteiro, a passagem das lavadeiras para o Lavadouro Municipal, as carradas de lenha para a padaria do Beliz na rua da Levada, as entradas e saídas para a fábrica do Alves e Martins na Horta do Quiton, ao ritmo da sirene, as manobras mirabolantes dos camiões gigantescos da URMAL para conseguirem transpor os portões da Horta, as idas das meninas do asilo para a Escola Feminina do Caldeiro, assim como o trânsito dos carros de tracção animal, cuja passagem por ali era uma constante. A vida era muito, mas muito mais difícil do que é hoje. Ainda não havia água canalizada e muita gente não tinha iluminação eléctrica. Nas cozinhas, as mulheres trabalhavam com fornalhas a carvão ou fogareiros a petróleo e, de vez em quando, os bicos lá se entupiam devido às impurezas. A esmagadora maioria das casas não tinha casa de banho, tomava-se banho completo uma vez por semana, aos domingos, que era o dia de ver a Deus e os despejos, incluindo os dos penicos, faziam-se em pias, das quais muitas casas só tinham uma.
Não havia frigoríficos nem arcas congeladoras, nem supermercados, nem grandes superfícies, nem tão pouco sacos de plástico, pelo que os frangos nasciam no quintal de quem os tinha.
As idas ao talho e à praça do peixe eram por isso mais frequentes, desde que em casa houvesse dinheiro.
Nas idas ao mercado, levavam-se talegos, cestos de vime e canastras para transportar as compras. Quando se ia ao pão levava-se uma bolsa de pano. Nas mercearias, o grão, o feijão, o arroz, o açúcar, a farinha e o café eram vendidos a granel e embalados em cartuxos de papel. O sabão era vendido à barra, mas podia-se comprar qualquer quantidade que era embrulhada em papel de jornal. Para se comprar vinho, azeite ou petróleo, levava-se de casa uma garrafa provida da respectiva rolha.
Não havia Televisão e a Rádio era senhora e rainha com os seus folhetins, o futebol aos domingos e a Volta a Portugal em Bicicleta, que nos faziam vibrar com as proezas dos eternos rivais, Zé Maria Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
A vida era dura, a Igreja Católica tinha uma influência muito maior na vida das pessoas que tem hoje e não se podia falar de política. Política só podia haver uma, a do único partido legal que era a União Nacional. Quem fosse contra isso, ia parar a Caxias como aconteceu ao carpinteiro José Lopes ou ao estofador Binadade Velez, meus amigos do tempo da outra senhora, seguramente aí desde os quinze anos. Nessa altura havia também quem se encarregasse de nos ensinar que a vida tinha que ser assim e ficarmos contentes com aquilo que segundo diziam, Deus nos deu.
Antes de em 1953, ir para a Escola do Caldeiro frequentar a 2º classe, andei na escola da Menina Teresinha, situada no nº 1 do Largo, nos baixos da casa onde morou o Poeta Sebastião da Gama. Do Largo ia obrigatoriamente para a catequese na Igreja de Santo André e para a formação nacionalista e paramilitar na Mocidade Portuguesa, na Rua da Cruz Vermelha. Na Igreja de S. Francisco fiz a Pimeira Comunhão, a Comunhão Pascal e a Solene, assim como o Crisma, tendo chegado a ensinar Doutrina aos mais novos, o que só foi perturbado com uma ruptura epistemológica aí pelos 12 anos, fruto da influência que a aprendizagem da História e das Ciências Naturais exerceram em mim e a que não terá também sido estranho, o convívio com dois velhos republicanos de 1910, o ferroviário Francisco Baptista, mais conhecido por Chico das Metralhadoras e o Cândido ferrador, combatente da guerra de 14-18, homem de grande corpanzil, que apesar de pacífico, dava apertos de mão como quem aperta uma tenaz. E se na Igreja tive algum êxito, ainda que efémero, até me tornar ateu, na Mocidade Portuguesa fui um completo atraso de vida, nunca passei da cepa torta, nunca passei de Lusito e nunca cheguei a Chefe de Quinas. Aquela coisa das formaturas e do marcar passo e do marchar e de fazer a saudação de braço levantado era uma grandessíssima chatice e eu não atinava com aquilo. Apenas me dava gozo a ginástica, o voleibol e o basquetebol. Mas o que é um facto, é que os tempos eram outros e as procissões e as paradas atraíam muito mais pessoas que hoje.
Grandes momentos na cidade eram as feiras como a de Maio ou Festas como as de Setembro.
No final dos ciclos de produção como as mondas, as ceifas ou a azeitona, circulava mais dinheiro pelas freguesias e pela cidade, mas em geral era tudo muito apertado, pois a maior parte do trabalho era sazonal, havia desemprego, salários de miséria e pior que tudo, tinha de se ter o bico calado.
Em alturas de crise era vulgar ver grupos de homens desempregados que iam de loja em loja, frente à qual um se destacava dentre os outros e descobrindo a cabeça, em sinal de humildade, pedia esmola em nome dos demais, agradecendo no final com um “Deus lhe pague”. Eu assisti a isso e sentia um nó no estômago.
Frente à Câmara e junto ao Café do Santos paravam os homens sem trabalho, sempre à espera de que alguém os contratasse, nem que fosse para uma única tarefa. Era então, bem amargo, o pão que Deus amassava.
No Adro do Largo do Espírito Santo funcionava a Sopa dos Pobres, que era para muitos a única tábua de salvação possível.
E esta era em traços gerais, a realidade nua e crua, não só no Largo do Espírito Santo como noutras zonas da cidade.
Permitam-me agora que vos conte algumas particularidades sobre a vida no Largo do Espírito Santo.
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Torre das Couraças – Foto de Rogério Carvalho – cerca de 1940.
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Ali havia um chafariz junto à fonte que ainda lá existe. Ali, eu e a miudagem do meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta, o chafariz foi sacrificado ao pseudo progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água límpida, chegaram a jazer há anos, dois imundos contentores de lixo, ocupando praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto, repito, em nome do pseudo progresso.
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Largo do Espírito Santo, à entrada para a Rua da Levada – Foto de João Sabino de Matos – 1947.
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Imitação da Fonte – Foto de João Sabino de Matos - cerca de 1950.
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Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro – espécie de enfermaria para os enchidos – onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:
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"Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!"
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A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a boleima, o bolo podre, o bolo de laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua, ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.
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Largo do Espírito Santo - Foto Tony – cerca de 1950.
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A Fonte do Espírito Santo – Desenho de Cruz Louro – 1939.
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Largo do Espírito Santo - Foto Tony – cerca de 1950.
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Os miúdos do Espírito Santo – foto de Manuel Gato – 1955.  No 1º plano e da esquerda para a direita: Armando Pereira, Manuel Maria Gato, Jorge (maluco) e António Maria Craveiro. No 2º plano e da esquerda para a direita: Zé (prima do Manuel Maria), Manuel (da avó), Rodrigo André (de mãos cruzadas), Hernâni Matos (com o braço à cintura), Maria Avelina Roma e Guilhermina Massano.
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Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência.
Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se faziam no Largo do Espírito Santo e também na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da Glória era onde está hoje a Adega do Isaías. Provavelmente já lá foram comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde. Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda, sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks, pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões, à mosca, à pateira, ao botão e ao peão, pois o software da época não dava para mais. E éramos felizes no território onde o nosso bando era rei e senhor e assim aprendíamos a ser homens.
Foi ali no Largo do Espírito Santo que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau Foro abaixo, na gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a propósito: “ - Devagar se vai ao longe!”.
No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.
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Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 63 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama. Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e sete anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário. "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".
É altura de terminar que a prosa já vai longa e a paciência dos leitores é inversamente proporcional ao tamanho do texto, pelo que para terminar pergunto:

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- “Quem é o espírito que acode ao Largo?”

Largo do Espírito Santo – Vista Geral da Fonte e do prédio derrocado – Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.
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Largo do Espírito Santo – Vista à saída da Rua das Freiras - Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – pormenor do prédio derrocado – Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.
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Também publicado no blog pessoal