Memórias do Espírito Santo

Nasci no número 14 do Largo do Espírito Santo, em Estremoz, no dia 19 de Agosto de 1946.
Nos anos 50, os meus pais mudaram-se para uma casa da rua da Misericórdia, hoje inexistente, mas pelo Largo continuei a viver e a brincar em permanência até 1956, ano até ao qual fiquei na casa dos meus tios, situada no número 17. A vida e os fluxos humanos que por ali se processavam nos anos 40-50 são-me pois familiares.
0
Fonte do Espírito Santo – Foto de J. Walowski – cerca de 1900.
0
Convento dos Agostinhos – Foto de J. Walowski – cerca de 1900.
0
Torre das Couraças – Desenho de Cruz Louro – 1939.
0
A passagem do aguadeiro e do leiteiro, a passagem das lavadeiras para o Lavadouro Municipal, as carradas de lenha para a padaria do Beliz na rua da Levada, as entradas e saídas para a fábrica do Alves e Martins na Horta do Quiton, ao ritmo da sirene, as manobras mirabolantes dos camiões gigantescos da URMAL para conseguirem transpor os portões da Horta, as idas das meninas do asilo para a Escola Feminina do Caldeiro, assim como o trânsito dos carros de tracção animal, cuja passagem por ali era uma constante. A vida era muito, mas muito mais difícil do que é hoje. Ainda não havia água canalizada e muita gente não tinha iluminação eléctrica. Nas cozinhas, as mulheres trabalhavam com fornalhas a carvão ou fogareiros a petróleo e, de vez em quando, os bicos lá se entupiam devido às impurezas. A esmagadora maioria das casas não tinha casa de banho, tomava-se banho completo uma vez por semana, aos domingos, que era o dia de ver a Deus e os despejos, incluindo os dos penicos, faziam-se em pias, das quais muitas casas só tinham uma.
Não havia frigoríficos nem arcas congeladoras, nem supermercados, nem grandes superfícies, nem tão pouco sacos de plástico, pelo que os frangos nasciam no quintal de quem os tinha.
As idas ao talho e à praça do peixe eram por isso mais frequentes, desde que em casa houvesse dinheiro.
Nas idas ao mercado, levavam-se talegos, cestos de vime e canastras para transportar as compras. Quando se ia ao pão levava-se uma bolsa de pano. Nas mercearias, o grão, o feijão, o arroz, o açúcar, a farinha e o café eram vendidos a granel e embalados em cartuxos de papel. O sabão era vendido à barra, mas podia-se comprar qualquer quantidade que era embrulhada em papel de jornal. Para se comprar vinho, azeite ou petróleo, levava-se de casa uma garrafa provida da respectiva rolha.
Não havia Televisão e a Rádio era senhora e rainha com os seus folhetins, o futebol aos domingos e a Volta a Portugal em Bicicleta, que nos faziam vibrar com as proezas dos eternos rivais, Zé Maria Nicolau (do Benfica) e Alfredo Trindade (do Sporting).
A vida era dura, a Igreja Católica tinha uma influência muito maior na vida das pessoas que tem hoje e não se podia falar de política. Política só podia haver uma, a do único partido legal que era a União Nacional. Quem fosse contra isso, ia parar a Caxias como aconteceu ao carpinteiro José Lopes ou ao estofador Binadade Velez, meus amigos do tempo da outra senhora, seguramente aí desde os quinze anos. Nessa altura havia também quem se encarregasse de nos ensinar que a vida tinha que ser assim e ficarmos contentes com aquilo que segundo diziam, Deus nos deu.
Antes de em 1953, ir para a Escola do Caldeiro frequentar a 2º classe, andei na escola da Menina Teresinha, situada no nº 1 do Largo, nos baixos da casa onde morou o Poeta Sebastião da Gama. Do Largo ia obrigatoriamente para a catequese na Igreja de Santo André e para a formação nacionalista e paramilitar na Mocidade Portuguesa, na Rua da Cruz Vermelha. Na Igreja de S. Francisco fiz a Pimeira Comunhão, a Comunhão Pascal e a Solene, assim como o Crisma, tendo chegado a ensinar Doutrina aos mais novos, o que só foi perturbado com uma ruptura epistemológica aí pelos 12 anos, fruto da influência que a aprendizagem da História e das Ciências Naturais exerceram em mim e a que não terá também sido estranho, o convívio com dois velhos republicanos de 1910, o ferroviário Francisco Baptista, mais conhecido por Chico das Metralhadoras e o Cândido ferrador, combatente da guerra de 14-18, homem de grande corpanzil, que apesar de pacífico, dava apertos de mão como quem aperta uma tenaz. E se na Igreja tive algum êxito, ainda que efémero, até me tornar ateu, na Mocidade Portuguesa fui um completo atraso de vida, nunca passei da cepa torta, nunca passei de Lusito e nunca cheguei a Chefe de Quinas. Aquela coisa das formaturas e do marcar passo e do marchar e de fazer a saudação de braço levantado era uma grandessíssima chatice e eu não atinava com aquilo. Apenas me dava gozo a ginástica, o voleibol e o basquetebol. Mas o que é um facto, é que os tempos eram outros e as procissões e as paradas atraíam muito mais pessoas que hoje.
Grandes momentos na cidade eram as feiras como a de Maio ou Festas como as de Setembro.
No final dos ciclos de produção como as mondas, as ceifas ou a azeitona, circulava mais dinheiro pelas freguesias e pela cidade, mas em geral era tudo muito apertado, pois a maior parte do trabalho era sazonal, havia desemprego, salários de miséria e pior que tudo, tinha de se ter o bico calado.
Em alturas de crise era vulgar ver grupos de homens desempregados que iam de loja em loja, frente à qual um se destacava dentre os outros e descobrindo a cabeça, em sinal de humildade, pedia esmola em nome dos demais, agradecendo no final com um “Deus lhe pague”. Eu assisti a isso e sentia um nó no estômago.
Frente à Câmara e junto ao Café do Santos paravam os homens sem trabalho, sempre à espera de que alguém os contratasse, nem que fosse para uma única tarefa. Era então, bem amargo, o pão que Deus amassava.
No Adro do Largo do Espírito Santo funcionava a Sopa dos Pobres, que era para muitos a única tábua de salvação possível.
E esta era em traços gerais, a realidade nua e crua, não só no Largo do Espírito Santo como noutras zonas da cidade.
Permitam-me agora que vos conte algumas particularidades sobre a vida no Largo do Espírito Santo.
0
Torre das Couraças – Foto de Rogério Carvalho – cerca de 1940.
0
Ali havia um chafariz junto à fonte que ainda lá existe. Ali, eu e a miudagem do meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta, o chafariz foi sacrificado ao pseudo progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água límpida, chegaram a jazer há anos, dois imundos contentores de lixo, ocupando praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto, repito, em nome do pseudo progresso.
0
Largo do Espírito Santo, à entrada para a Rua da Levada – Foto de João Sabino de Matos – 1947.
0
Imitação da Fonte – Foto de João Sabino de Matos - cerca de 1950.
0
Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia Estrela, no nº 17. Fazíamos o lume de chão para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão assim.
Por cima das nossas cabeças, o fumeiro – espécie de enfermaria para os enchidos – onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder repimpar com elas.
Ti Manel Alturas, o meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:
0
"Olha o Deus Menino
Nas palhas deitado,
A comer toicinho
Todo besuntado!"
0
A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas preparavam durante todo o dia. Ele era a boleima, o bolo podre, o bolo de laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido falar em colesterol.
Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali cerca da meia noite quando me mandavam para a rua, ver o Pai Natal entrar pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos. Para vos falar disto é por que sei qual a diferença exacta que há entre os dois natais.
0
Largo do Espírito Santo - Foto Tony – cerca de 1950.
0
A Fonte do Espírito Santo – Desenho de Cruz Louro – 1939.
0
Largo do Espírito Santo - Foto Tony – cerca de 1950.
0
Os miúdos do Espírito Santo – foto de Manuel Gato – 1955.  No 1º plano e da esquerda para a direita: Armando Pereira, Manuel Maria Gato, Jorge (maluco) e António Maria Craveiro. No 2º plano e da esquerda para a direita: Zé (prima do Manuel Maria), Manuel (da avó), Rodrigo André (de mãos cruzadas), Hernâni Matos (com o braço à cintura), Maria Avelina Roma e Guilhermina Massano.
0
Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência.
Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se faziam no Largo do Espírito Santo e também na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da Glória era onde está hoje a Adega do Isaías. Provavelmente já lá foram comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde. Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda, sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks, pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões, à mosca, à pateira, ao botão e ao peão, pois o software da época não dava para mais. E éramos felizes no território onde o nosso bando era rei e senhor e assim aprendíamos a ser homens.
Foi ali no Largo do Espírito Santo que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau Foro abaixo, na gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a propósito: “ - Devagar se vai ao longe!”.
No nº 2 – 2º morava o poeta Sebastião da Gama, natural de Azeitão e que viera para Estremoz em 1950, como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial de Estremoz e que estabeleceu uma forte ligação afectiva com a nossa cidade, patente nos seus Poemas e no seu Diário.
0
0
Sebastião da Gama sofria de tuberculose renal, diagnosticada muito cedo e tinha consciência que ia ter uma morte prematura, por isso amou a vida e a natureza intensamente, o que se reflectiu nos seus escritos.
A 5 de Fevereiro de 1952 deixaria para sempre o Largo do Espírito Santo, 2 – 2.º, rumo ao Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde viria a falecer após 2 dias de intensa agonia. Lembro-me desse fatídico dia 5 de Fevereiro de 1952, como se fosse hoje. Lembro-me de ele, meu vizinho, partir para uma viagem sem regresso.
Eu, hoje com 63 anos, um metro e noventa de altura e mais de cem quilos de peso, era um puto que usava bibe e andava numa Mestra, a Menina Teresinha, percursora das actuais Educadoras de Infância e que dava Escola no nº 1, nos baixos da Casa de Sebastião da Gama. Eu, que na época tinha veleidades ciclistas, andava de triciclo no passeio em frente da Casa de Sebastião da Gama, que me conhecia muitíssimo bem e que por vezes me fazia uma festa na cabeça, como se faz aos miúdos, sem maldade alguma.
Ainda guardo um desdobrável impresso a sépia com a sua foto e uma cabeça de Cristo crucificado, com poemas seus, que após a sua morte, foi oferecido aos amigos e aos vizinhos, em Sua Memória.
Hoje, estou aqui a falar dele e do Largo que ele tanto amava. Cinquenta e sete anos depois, é uma modesta, mas sentida evocação do puto ciclista que impunemente andava de triciclo frente à sua casa. E que ao contrário do que Veloso ouviu de Camões no Canto V dos Lusíadas, jura que nunca ouviu do Poeta o comentário. "Ouve lá, Hernâni amigo, este passeio é melhor de descer que de subir!".
É altura de terminar que a prosa já vai longa e a paciência dos leitores é inversamente proporcional ao tamanho do texto, pelo que para terminar pergunto:

0
- “Quem é o espírito que acode ao Largo?”

Largo do Espírito Santo – Vista Geral da Fonte e do prédio derrocado – Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.
0
Largo do Espírito Santo – Vista à saída da Rua das Freiras - Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

Largo do Espírito Santo – pormenor do prédio derrocado – Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.
0
Também publicado no blog pessoal

Estremoz está mais pobre

Não acompanhei de perto a vida do Sr. José Costa. Aquilo que sei, foi-me contado por alguns amigos e conhecidos que várias vezes ouvi elogiar a sua conduta. Não convivi com ele de perto mas, pelo que me disseram, penso que se tratava de um homem que pensava nos outros antes de pensar em si.
Quero agradecer-lhe o que fez pelo "meu" CF Estremoz. Assisti, por diversas vezes, a Assembleias Gerais de um clube em que ninguém parecia querer pegar mas que ele nunca abandonou. Estremoz está mais pobre. Obrigado Sr. José Costa...

As Cinco Estações do Ano

0

António Simões
0
É sabido que sou um homem dado a colecções e que sou exigente naquilo que colecciono. Como é o caso dos Amigos.
Hoje vou falar-vos dum Amigo que segundo as suas próprias palavras:
0
“Escreve poemas desde os dez anos e neles fala de insectos, pedras, flores, tremuras de alma ou do vento e de outras coisas do seu abcedário de ternura. Um dia, inventou uma barca para navegar pelas infinitas searas do amado Alentejo de sua infância e vai por elas fora por uma fresta aberta num poema e sabe que um dia chegará às praias de luz onde nasce o dia.”
0
É um Amigo que, apesar de eu ser um coleccionador incorrigível, não troco por nenhum outro. É que as suas palavras fazem-me vibrar as cordas das emoções e ressoam-me por todo o corpo.
0
Tenho muito orgulho nesse Amigo. Por isso, partilho Convosco um Poema desse meu Amigo, que decerto também será Amigo de muitos de Vós.
0
O Nosso Amigo chama-se ANTÓNIO SIMÕES e são de AUGUSTO MOTA as Fotos que ilustram o Poema “AS CINCO ESTAÇÕES DO ANO”.
0
Digam-me lá, se o Poema é ou não é uma Ode à Alegria?
0
0

00
0




I Centenário do Nascimento de Maria de Santa Isabel

Maria de Santa Isabel (1910 - 1992)

Hoje, dia 16 de Abril de 2010, tem lugar o I Centenário do Nascimento de Maria Palmira Osório de Castro Sande Meneses e Vasconcellos Alcaide (16/04/1910 - 13/01/1992), grande poetisa estremocense, conhecida por Maria de Santa Isabel. Casada com Roberto Augusto Carmelo Alcaide (9/8/1903 -27/7/1979), dramaturgo e caricaturista, irmão de Tomaz de Aquino Carmelo Alcaide (16/02/1901- 9/11/1967), tenor lírico de projecção internacional.

   
          Roberto Alcaide (1903-1979)                        Tomaz Alcaide (1901-1967)  
0
A bibliografia poética que conheço e tenho de Maria de Santa Isabel é:

- FLOR DE ESTEVA, Portugália Editora, Lisboa, 1948.
- TERRA ARDENTE, Tipografia da Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1961.
- SOLIDÃO MAIOR, Coimbra Editora, Coimbra.
- FRONTEIRA DE BRUMA, 1997. Edição póstuma.





Nascido em 1946, tive o privilégio de conhecer em vida esta grande Senhora, que morava na Horta Primeira, na rua da Levada, em Estremoz.
Como ex-librista, não quero deixar de reproduzir aqui o seu ex-líbris, que tal como os seus livros de poemas, me foram há anos oferecidos, pela sua sobrinha, Isabel Taborda Oliveira, ex-vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Estremoz.
0
0
E porque a loiça de barro vermelho de Estremoz está em extinção – Jerónimo Lagartinho é o último oleiro de Estremoz - faz sentido reproduzir aqui do seu livro “Flor de Esteva”, o soneto “Pucarinhos de barro”.

PUCARINHOS DE BARRO

Pucarinhos de barro, quem me dera
Sentir, na minha boca, essa frescura
Da vossa água perfumada e pura,
Que me trás o sabor da primavera!

Quanta boca ansiosa vos procura,
Num símbolo de crença e de quiméra:
Simples imagem viva, bem sincera,
Dum mundo de ilusões e de ternura!

Meus santos pucarinhos, milagrosos,
Cumprindo as gratas obras do Senhor,
Dando a beber aos lábios sequiosos:

Minha boca vos beija com fervor,
Como se, noutros tempos luminosos,
Beijasse ainda o meu primeiro amor!

Maria de Santa Isabel

Na passagem do I Centenário da Poetisa, lançamos daqui à autarquia, a sugestão de a homenagear, pois foi uma figura cimeira da cultura alentejana.
 
Hernâni Matos

Ao Cidadão de Estremoz – José Palmeiro Costa

( Texto publicado no Jornal Brados do Alenejo - 22Julho2007)
Conheci o José Palmeiro da Costa em 1976, quando ele, no âmbito do seu intenso trabalho político, visitava a casa do meu pai. Viviam-se tempos difíceis, próprios da nossa jovem democracia e, apesar de não ter uma consciência política totalmente formada, a figura do “Zé Costa” marcou-me profundamente. Vi nele, algumas das qualidades que ainda hoje mantém: É um homem simples, frontal e extremamente leal.
Na altura o “Zé Costa” já era um dos principais rostos do Partido Socialista na organização da listas de Estremoz e seria decerto, como o foi durante muitos anos, o mais destacado financiador das campanhas dos socialistas. Foi ele quem “carregou o PS às costas” durante mais de duas décadas e foi ele, ainda que indirectamente, quem mais contribui para a projecção de alguns dos actuais quadros políticos do PS. Tenho a certeza que se a saúde o permitisse, ainda hoje estaria disponível para o trabalho político.

Militante do PS desde 1974, destacado dirigente local e distrital, haveria de chegar a Presidente da Câmara Municipal de Estremoz. Pode questionar-se esta ou aquela decisão, mas a verdade é que ele sempre demonstrou total desapego ao poder e deu o melhor de si mesmo na defesa de Estremoz.
Para trás ficam anos e anos de militância e combate político, marcados pelo “amor ao seu PS”, mas sempre com respeito pelos adversários e com transparência e fidelidade perante a sua casa mãe. Com justiça, ainda hoje é Presidente Honorário da Federação Distrital do PS e o seu trabalho em prol dos outros, continua a ser reconhecido. Mário Soares, pergunta frequentemente por ele e quando têm oportunidade de se encontrar, trata-o respeitosamente por “o homem da gravata”. É que o “Zé Costa” usa em todos os actos de natureza política, uma gravata grená recheada de símbolos do PS a amarelo.
Em 2005 preparei-lhe uma singela homenagem, com o objectivo de relembrar os 30 anos de militância política, mas também e sobretudo pelo exemplo de altruísmo, coerência e verticalidade, que constitui a sua vida.
O José Costa é um homem grande. Grande na altura e igualmente grande na dimensão humana. Os clubes desportivos, as colectividades culturais, as instituições sociais e as famílias mais carenciadas de Estremoz conhecem-no muito bem. Sabem que o “Zézica” como carinhosamente o trata a Senhora sua esposa D. Maria Amélia Palmeiro Costa, foi fundador, dirigente e patrocinador de muitas das actividades dessas associações. Sabem que José Costa está ligado indelevelmente à história do Clube de Futebol de Estremoz. Sabem igualmente da sua importância para a Associação de Bombeiros Voluntários de Estremoz e provavelmente poucos saberão que “ele” também está ligado ao inicio da Delegação de Estremoz da Cruz Vermelha e ao Orfeão Tomás Alcaide.Por tudo isto, o cidadão José Palmeiro da Costa é um exemplo de como se deve estar na política e constitui indubitavelmente um orgulho para a cidade e para todo o Concelho de Estremoz.

___

MORREU O JOSÉ COSTA


Ex-Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, destacado membro do Partido Socialista, reconhecido pelas suas qualidades humanas, muito em especial a generosidade para com o próximo sem esperar nada em troca, o que o levou ao longo da vida a apoiar entidades, associações, clubes e simples cidadãos.
Morreu um Homem Bom, por isso a Cidade ficou mais pobre e está de luto.
À Família enlutada, muito em especial a sua esposa, D. Maria Amélia Palmeiro Costa, endereçamos em nome de ESTREMOZ NET, as nossas mais sentidas condolências.



JOSÉ GOMES PALMEIRO DA COSTA
 (Galeria dos Presidentes de Câmara 1910-2008)
0
José Gomes Palmeiro da Costa, filho de Acácio José Palmeiro da Costa e de Gabriela Gomes Palmeiro da Costa, nasceu na freguesia de Santo André, concelho de Estremoz, a 12 de Junho de 1922.
Em 1929, inicia a sua formação primária, em Estremoz na escola particular do Sr. Robalo. Quatro anos mais tarde, em 1933, frequenta os três primeiros anos do liceu no Colégio particular de Rafael Grincho. Em 1936, ingressa no Liceu Camões, em Lisboa onde frequenta o 4º, 5º e 6º anos. Irá completar o 7º ano no Liceu Rodrigues Sampaio, no Porto onde fará as provas de aptidão à Faculdade. Terminada a formação liceal, frequentará diversas cadeiras do curso preparatório de Engenharia Civil, Mecânica e Electrónica no Porto, em Lisboa e, em Coimbra. Nesta cidade permanecerá dois anos onde desenvolveu uma intensa actividade enquanto membro responsável pelo pelouro da Associação Académica de Coimbra.
Nos finais dos anos 40, regressa a Estremoz, altura em que é chamado a cumprir o serviço militar no Regimento de Cavalaria nº 3. Ainda no cumprimento do serviço militar foi responsável pela carreira de tiro do regimento, quando das suas deslocações a Évora para efeitos de treino. Em 19 de Junho de 1953, ingressa na Câmara Municipal de Estremoz como Gerente dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento tomando posse a 6 de Julho de 1953. Passa a Chefe dos Serviços Administrativos a 19 de Fevereiro de 1959, com base no parecer da Direcção Geral da Administração Política e Civil de 8 de Maio de 1957. Mantém-se neste cargo até 30 de Abril de 1977. Durante a presidência de Câmara de Luís Pascoal Rosado colabora, enquanto membro fundador do Círculo Cultural de Estremoz e do Grupo dos Amigos de Estremoz a cuja primeira direcção pertenceu. Já nos finais da década de sessenta e princípios da década seguinte, desempenhará funções de Vice-presidente e Presidente do Clube de Futebol de Estremoz, respectivamente. Ainda nos anos sessenta, participa na Comissão Organizadora do Cortejo do Trabalho que decorreu em Estremoz. Em Janeiro de 1974, funda a Secção Concelhia do Partido Socialista, em Estremoz, onde se mantém cerca de 20 anos como Secretário Coordenador. Entre 1 de Maio de 1977 e 2 de Agosto de 1987 interrompe as suas funções de Chefe dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento para dirigir a Farmácia Costa. Regressa ao exercício das suas funções a 3 de Agosto de 1987. Requer a exoneração do cargo dois anos mais tarde, a 9 de Outubro de 1989. Em 3 de Abril de 1985 casa com Maria Amélia Duarte Fernandes Palmeiro da Costa, em Estremoz. Entre 20 de Fevereiro de 1990 e 31 de Maio de 1992 assume as funções de Vereador em regime de permanência na Câmara Municipal de Estremoz. Em 17 de Novembro desse mesmo ano, em virtude da aposentação do então Presidente da Câmara, António João Véstia da Silva, assume a presidência da Câmara na qualidade de número dois da lista.
Em 12 de Dezembro de 1993, candidata-se como cabeça de lista pelo PS à Câmara Municipal de Estremoz, perdendo, no entanto as eleições para o independente, cabeça de lista pela CDU, José Dias Sena. Mantém-se como vereador sem pelouro durante todo o mandato. Ainda em 1993, desempenha as funções de presidente da Assembleia Geral do CFE. Membro da direcção da Federação Distrital de Évora do Partido Socialista, foi nomeado seu presidente honorário por proposta de José Alberto Fateixa.
A nível local destacou-se enquanto: sócio nº um do Núcleo da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, Sócio e membro directivo do Orfeão Tomás Alcaide, Sócio nº um do Asilo entre muitas outras instituições ligadas ao associativismo local.

Já nas bancas