Já nas bancas

Sensibilidade e bom senso II


Em Fevereiro de 2007 publicou este jornal uma crónica minha intitulada "Sensibilidade e bom senso", a qual versou sobre o abate injustificado de árvores no espaço urbano de Estremoz. Passados 3 anos e, curiosamente, na mesma semana em que a RTP 2 inicia a difusão de mais uma adaptação televisiva de uma obra de Jane Austen (desta feita, "Emma"), volto ao mesmo tema pelas piores razões: o abate criminoso de árvores continua.
Classifiquei de "criminoso" o abate de árvores mesmo sem ter a certeza se, do ponto de vista jurídico-legal, se trata efectivamente de um crime ou de uma mera violação das normas de conduta social (de uma contra-ordenação, portanto). Enfim, a classificação jurídica do acto pouco importa agora, para mim é um crime e ponto final. De facto, não vejo qualquer similitude entre um estacionamento proibido – o qual basta remover o carro e o problema fica resolvido – e destruir o património arbóreo (com dezenas, quiçá centenas, de anos de vida) que integra a nossa paisagem. Neste último caso, é toda uma memória colectiva que é banida da nossa vivência e cuja reposição da situação anterior ao "crime" só ocorrerá, na melhor das hipóteses, quando a maior parte de nós já estiver na quinta dos pés juntos a fazer tijolo.
Há 3 anos vi tudo o que se estava a passar, ao vivo e a cores, com estes que a terra há-de comer; desta vez só quase 2 anos depois vim a saber do crime e… através de terceiros. Há 3 anos, o crime foi cometido dentro da cidade de Estremoz; desta vez, o crime foi cometido na antiga estrada N4, a seguir à passagem de nível da Fonte do Imperador. No dizer de Alejandro Casona "as árvores morrem de pé"… pois mas isso é quando morrem de causas naturais; desta vez as árvores foram assassinadas de pé, através de uma poda excessiva deliberadamente feita com a intenção de as matar. Ora aí está uma daquelas coisas que me chateiam: quem ordenou, quem consentiu, quem não agiu, fê-lo de forma dissimulada com o claro propósito de matar e ao mesmo tempo com a intenção de dar ares de "acidente", facto que torna ainda mais hediondo este crime com recurso à tortura. Só de uma coisa os criminosos não podem ser acusados: da ocultação dos cadáveres. Os restos mortais das árvores continuam lá… de pé.
A minha veia romanesca leva-me a chamar "túnel verde" às estradas circundadas de árvores de grandes dimensões, por sempre ter visto neles a simbiose perfeita da intervenção do Homem em harmonia com a Natureza. Ali, no antigo caminho para Lisboa havia um… que alguém se encarregou de destruir de forma irremediável. Esse alguém havia de ser condenado, no mínimo, a repor aquilo que destruiu. Já não seria para proveito daqueles que hoje integram o mundo dos vivos, porém, tenho a certeza que os nossos netos ainda se iriam deliciar com o túnel verde.
Notas:
Publicado na edição de 01Abr2010 do Jornal Brados do Alentejo;
Também publicado em ad valorem;
As imagens são do autor ou foram colhidas nos locais para os quais apontam as respectivas hiperligações.

O "Traje Popular Alentejano" no Centro Cultural


No Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz, está patente ao público, até finais de Abril, a Exposição de fotografia “O TRAJE POPULAR ALENTEJANO”.
A Exposição, da iniciativa da Associação Filatélica Alentejana e com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz, é constituída por cerca de cinquenta fotografias de grande formato, que num relance visual procuram dar uma visão sintética do que foi o traje popular alentejano na primeira metade do século XX.
Na Exposição é possível apreciar como eram os trajes usados nas fainas agro-pastoris por camponeses, semeadores, mondadeiras, ceifeiros, guardas de herdades, pastores, porqueiros, tiradores de cortiça, vindimadores, azeitoneiros, carreiros, manteeiros, etc.
Na Exposição é possível ainda apreciar o traje usado por homens e mulheres, no seu dia-a-dia nos centro urbanos, bem em como em ocasiões especiais como as festas cíclicas ou a ida a romarias.
O traje alentejano é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.
Ao surgir como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, o traje popular tem a ver com a nossa identidade cultural, a qual mais do que nunca interessa preservar. Porém, mais que dissertar aqui sobre o traje popular alentejano, importa contar uma das muitas histórias que aquelas fotografias suscitam.
É uma história centrada numa fotografia de Rogério Carvalho (1915-1988), obtida nos anos quarenta do século passado. Mostra o passeio do Rossio frente ao Hospital da Misericórdia, em Estremoz.
Um camponês de pelico e safões prepara-se para beber uma aguardente, que a viúva, proprietária da taberna-churrião se prepara para lhe servir. À esquerda, o carro aberto dum vendedor de cereais. Ao fundo, a Igreja dos Congregados, antes do completamento da construção.
A taberna-churrião funcionava como taberna ambulante, onde se servia vinho, aguardente, pão, queijo e carnes cheias. Aí os camponeses gostavam de petiscar. Era um local de amena cavaqueira e de convívio, onde por vezes se defrontavam ao desafio, poetas populares como os lendários Hermínio Babau e Jaime da Manta Branca.
Consta-se que certa vez, o primeiro, versejador de vastos recursos e crítico do Estado Novo, se terá saído com esta cantiga:

“ Lá em Santa Comba Dão,
Nos foros de Jesus,
Para dar cabo de uma Nação,
Deu uma mãe um filho à luz.”

Esta tirada foi aproveitada por dois indivíduos que não o gramavam e o foram denunciar à Guarda Nacional Republicana, cujo posto se situava na Igreja dos Congregados. Após a denúncia e chegados à taberna-churrião, os guardas deram ordem ao Hermínio de os acompanhar até ao posto, o mesmo se passando relativamente aos dois bufos. Uma vez no posto, os guardas disseram-lhe que era acusado de estar a dizer versos contra o Governo, ao que ele respondeu que não senhor, que não era verdade, desafiando então os denunciantes a repetirem os versos que ele tinha dito. Como eles não foram capazes de o fazer, o Hermínio declarou então aos guardas:
- Meus senhores, os versos foram estes:

“ Acabaram as revoluções.
A situação melhorou.
Portugal é um brinquinho
Desde que este Governo entrou.”

Os acusadores, bem clamaram que os versos não eram aqueles, mas como não foram capazes de apresentar versos contrários como prova, foram acusados pelos próprios guardas de terem prestado falso testemunho e foram eles que acabaram por passar a noite no posto. Em termos de rifonário popular, chama-se a isso “Ir buscar lã e sair tosquiado” . Quando ao Hermínio Babau voltou à taberna-churrião para continuar a função.
Nessa época, durante a Feira de Santiago e por ocasião das tradicionais Festas de Setembro, o passeio do Rossio frente à Misericórdia ficava repleto destes carros, propriedade de quem vinha às Festas. Pelos arreios dos animais, pelos assentos, pelas cortinas e pelos enfeites dos carros, se conhecia o poder económico de quem neles se fazia transportar.
Era em churriões puxados por mulas, que os camponeses das freguesias rurais se dirigiam à cidade para vender e para comprar ou simplesmente para tratar de assuntos que só na cidade podiam ser tratados.
Era também em churriões destes que se ia às Festas de S. Mateus a Elvas. Era uma romaria que durava dias, entre o ir e o voltar. E ali os romeiros estacionavam os churriões por zonas, conforme a zona de proveniência. Digam-me lá, se o alentejano é ou não é um tipo organizado?
Esta história exemplifica bem, as histórias que as fotografias ali expostas podem suscitar. Daí a importância de que se reveste a presente Exposição, o que só por si justifica uma visita prolongada.
A Exposição pode ser visitada de 3ª feira a sábado, entre as 9 e as 12 h 30 min e entre as 14 e as 17 h 30 min.

Imagem retirada de: 

Os sábados de manhã, em Estremoz ou melhor “o mercado de sábado” são de facto, em muitos sentidos, riquíssimos!
Destaco um acontecimento que, para mim, ilustra a anterior adjectivação sobre esta nossa cidade: o (re)encontrar amigos e com eles, de viva voz/cara a cara, podermos dialogar.
Num desses sábados, (re)encontro, como habitualmente, o meu amigo professor Hernâni Matos. Entre outras coisas, falámos sobre blogues e facebookers de Estremoz. Em concretamente de um facebooker (ou domínio do facebook) sobre Estremoz, que detém. Ele comentava que seria interessante juntar num encontro os “amigos” todos. Não posso precisar, mas também atirou a ideia de esse facebooker ter vários administradores, pois seria mais fácil editar posts assim como gerir os respectivos comentários.
Conhecendo eu, a forma activa de ele estar na vida, de viver em sociedade participando cívica e activamente nela (ao contrário de muitos que “apenas passam”), não me surpreendeu, umas semanas depois, o Hernâni ter-me enviado um email, contando-me a sua ideia e a iniciativa que a Associação Filatélica Alentejana pretenderia desenvolver.
Das ideias/princípios do projecto, houve duas que de motus proprio levaram-me a dizer imediatamente que SIM:
1- Amar Estremoz;
2- Postar livremente, mas assumindo as ideias ou intervenções.
Se sobre a primeira não me é fácil em poucas linhas aqui falar dela, da segunda poderei resumir um porquê em poucas palavras.
A LIBERDADE responsável foi algo que me foi transmitido pelos meus pais, que com outros professores pude vivenciar e que hoje pertence aos meus genes.
A LIBERDADE de forma consciente assumir e exprimir a minha opinião mas respeitando – SEMPRE – o outro.
A LIBERDADE de ter a minha fé – Católico, e a minha ideologia – PPD/PSD, que padronizam as minhas acções e reflexões mas que nunca se sobrepõem à fé (ou falta dela) e ideologias de outros.
A LIBERDADE de ouvir, intervir mas aprender sempre.
Por apenas isto, que anteriormente referi, e por tudo o mais eu dou a cara!







Nuno Rato

COLECTIVO

O Hernâni telefonou. Um blogue colectivo? Sim, porque não! A ideia não é virgem. Em 2008, no primeiro encontro de bloggers de Estremoz (gente boa), essa semente tinha sido posta em cima da mesa. Faltou quem a lançasse à terra. O Hernâni fê-lo em boa hora. O que nos une é Estremoz e há um objectivo que pode ser comum, por caminhos diferentes. Feito o desafio, aceitei na hora. Com uma única condição: Não há anónimos! Sou daqueles que acham que para além de outras utilidades, os blogues funcionam como uma espécie de teste para se perceber quando as audiências estão preparadas para determinados assuntos ou abordagens. Estaremos preparados para uma abordagem colectiva?
E que motivações pode haver para participar num blogue?
Um estudo académico de João Canavilhas(*) que a seguir transcrevo com a devida vénia, refere-se a este assunto de forma assaz curiosa.
"Os resultados revelam que as duas razões mais fortes para a criação de um blogue são a vontade de “informar e ser informado” e a necessidade de “ter uma intervenção cívica”, obtendo ambas o mesmo resultado. Na análise por posicionamento político, a Direita valoriza mais o informar e ser informado, ao passo que a Esquerda dá primazia à intervenção cívica. O terceiro aspecto mais referenciado como motivo para a criação de um blogue é a necessidade de um espaço de opinião inalcançável nos media tradicionais. Neste caso, Esquerda e Direita apresentam valores semelhantes. Os aspectos que se seguem são “sentir a reacção imediata dos leitores” e “criação de relações com pessoas que têm interesses comuns”, com Esquerda e Direita a apresentarem valores semelhantes.
A possibilidade de “participar numa comunidade verdadeiramente Democrática” é uma forte motivação para os inquiridos. Quem mais reforça este motivo é a Esquerda, com 40% dos inquiridos a mostrarem-se mesmo completamente de acordo, um valor significativamente superior aos 28% apresentados pela Direita.
Outra das razões que leva os inquiridos a criar o seu próprio espaço é “ajudar os leitores a interpretar as notícias” sendo esta a sexta razão mais referida.
A sétima razão mais valorizada na fundação de um blogue foi a possibilidade de “criar uma alternativa aos media tradicionais”.
Por fim, os inquiridos mostram ainda estar de acordo que a criação dos blogues pretendia “atingir públicos alternativos", sendo a Esquerda bastante mais entusiasta neste aspecto.
Os inquiridos mostraram o seu desacordo apenas em duas das 12 frases: Conseguir reconhecimento público e marcar a agenda política/mediática parecem não ser razões para a criação de um blogue. No primeiro caso é a Esquerda quem mais se demarca, com 47% dos inquiridos a mostrarem-se completamente em desacordo contra 23% de Direita."
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Doctor pela Universidad de Salamanca
DEA em Comunicación Audiovisual y Publicidad (Univ. de Salamanca)
Licenciado em Comunicação Social (Univ. da Beira Interior)
Professor Auxiliar na Universidade da Beira Interior
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Também pode ser lido neste local.

EstremozNet - Um blogue colectivo


A convite de Hernâni Matos integro o grupo fundador do blogue colectivo EstremozNet e colaborei (com propostas de emendas, de supressões e de aditamentos) na elaboração do respectivo estatuto editorial. A criação deste blogue colectivo insere-se num projecto mais vasto, o qual inclui, entre outras iniciativas, a realização do I Encontro de Bloggers, Webmasters e Facebookers de Estremoz.
Mas falemos, apenas e por ora, do EstremozNet. Um blogue colectivo tem inequívocas vantagens: tem maior dinamismo, mais visitas e, por maioria de razão, um maior interesse que decorre do facto de com múltiplos autores, múltiplas sensibilidades, múltiplas opiniões é sempre possível comparar o verso e reverso, o ponto e o contraponto. Mais: tudo isto será feito por estremocenses (por nascimento ou por opção) e… sempre por estremocenses devidamente identificados.
Por via de regra o debate sério, construtivo e responsável faz-se através de opiniões com assinatura. Logo, a crítica fácil, maldizente, mal intencionada e cobarde (porque não dizê-lo), não vai ter espaço neste blogue. Como é evidente, este facto vai afastar aqueles que, beneficiando de total impunidade e sem qualquer respeito pela Ética na Comunicação, vêem na Web uma via de conspurcar outros com a sua má formação e baixos instintos. Vai também afastar aqueles que têm o mórbido prazer de ver salpicos de sangue… de outros.
Esta opção tem, todavia, um reverso que se traduz num inconveniente. Nem todos os anónimos são pessoas mal formadas. Alguns haverá – e já citarei exemplos – que podem estar compelidos a não poderem assumir a sua identidade, sob pena de ficarem sujeitos a represálias pelo seu grito de liberdade. Curiosamente, eu – que, em abono da verdade, nem sequer sei se me posso considerar um verdadeiro blogger – até fui muito influenciado para entrar nesta aventura da blogosfera por um blogue (que ainda hoje muito admiro) cujo(a) autor(a) até era anónimo(a) (Semiramis). O(A) autor(a) era anónimo(a) porque ocupava uma posição de destaque na hierarquia da Administração Pública e corria riscos efectivos se assinasse as suas opiniões, as suas denúncias. Aliás, sempre que alguém depende hierarquicamente de uma pessoa intolerante e sem escrúpulos, temos que o reconhecer, tal pessoa fica cerceada na sua liberdade. Às vezes, o anonimato é a única via… e tanto assim é que a moderna Corporate Governance de algumas empresas já admite o recurso a linhas anónimas como forma de ficar a saber quem anda a roubar quem, o quê e como.
Chegados aqui alguns se interrogarão: porque subscreves então um estatuto editorial que bane o anonimato? A minha resposta é: não confundamos as coisas. Uma coisa é denunciar injustiças a coberto do anonimato; outra bem diferente, é usar o anonimato para lançar anátemas sobre pessoas inocentes, corajosas ou, pura e simplesmente, de quem não se gosta por esta ou aquela razão. Não confundamos coragem com cobardia reles.
Que fazer então se alguém quiser denunciar, anonimamente, uma injustiça neste espaço? A resposta é simples: todos os autores deste blogue disponibilizam uma caixa de correio electrónico. Mande uma mensagem privada, conte o que lhe vai na alma… se o destinatário tiver condições de verificar (comprovar) as suas alegações, se se revir nelas, então será ele quem irá fazer a denúncia pública… mas, como é óbvio, com ASSINATURA.
Notas:

  • As imagens são do autor ou foram colhidas nos locais para as quais apontam as respectivas hiperligações;

  • Também publicado em ad valorem.

Vem aí a FIAPE 2010

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